Serviço de Quarto e o Tarado do Hotel

13 07 2009

Motéis são divertidos, hotéis são legais. Apesar do nome parecido, são duas noções diferentes de serviço de quarto, a não ser que você tenha tido uma experiência parecida com a minha.

Feriado prolongado em São Paulo, um pouco de dinheiro no bolso e um amigo e eu resolvemos fugir um pouco da monotonia paulistana típica da ausência da labuta proletária. Como a verba não era extensa, o destino tinha que ser próximo: Campinas. Hotel barato, duas camas de solteiro e dessa vez, meu amigo não levou um pijama anti-sexo, escrito: “Vestibular 2006 Uninove, Matricule-se Já!”

Final de noite, balada por lugares desconhecidos, bebida para fazer amigos e, tentando ser sociável, percebi que estava apresentando meu próprio talk-show entrevistando pré-universitários alcoólatras e plantas ornamentais. Era hora de ir embora. Ou para o próximo bar.

Voltamos ao hotel e eu perdi na disputa dos palitinhos. Fiquei encarregado de subir e pegar o GPS para encontrar o próximo destino. Entro no hotel, tonto de bêbado, com a seguinte estratégia: passar pela recepção em linha reta, o mais rápido possível, para não demonstrar o meu grau de embriaguez.

Pulo no elevador e, logo em seguida, antes que a porta se feche, entra um cara alto, meio forte, de cabelo enrolado, tomando uma água. “O Diabo bebe Prata”, penso, fazendo uma piadinha com o nome da garrafinha de água que só fez sentido naquele momento. “Ah, vai para o 13º andar também?”, diz ele. Eu sorrio, digo que sim enquanto o elevador sobe em espiral.

Educado, digo um “boa noite”, vou para o quarto, entro, localizo o GPS e abro a porta para sair. Aí a surpresa: o fulano está parado, na porta, com o “documento” em mãos e pergunta: “E aí, você gosta de uma rola?”….Eu fico branco. Após esse microssegundo-michael-jackson, eu balanço a cabeça, começo a tremer e falo que NÃO. Ele balança o negócio, como quem finge jogar uma bolinha para um cachorro e pergunta: “Tem certeza?”.

Era o típico prelúdio do estupro. Eu tinha tomado vodkas demais para me defender com propriedade e não tinha crédito no celular para pedir socorro. Era preciso fugir. Saí correndo pelo corredor do hotel gritando a melhor desculpa que conheço para espantar desconhecidos feios: “Eu estou acompanhado! To acompanhado!”.

Seria a salvação. Entrar no elevador, descer, entrar no carro e fingir que nada aconteceu. Mas não. Eu tinha esquecido a porta aberta. E o fulano continuava lá, parado, em frente a porta porque sabia que eu tinha que voltar.

Nesse momento, fui coberto de uma genialidade e malandragem espontânea. Eu teria que atuar, meus amigos. Era preciso dissimular. Se eu fizesse cara de pânico, ele poderia entrar no quarto e nunca mais sair de lá. Ensaiei uma caminhada sexy. Apliquei ali tudo que aprendi com America’s Next Top Model. Sorrisinho maroto. Olhar 43. Chego perto, coloco a mão na barriga dele, bato com o GPS no pau dele, fecho a porta do quarto e saio voando, correndo, gritando: “Tarado! Tarado! Tarado!”.

Desci na recepção e reclamei com o gerente. Agora pasmem: não havia ninguém hospedado no 13º andar além da gente. Meus amigos acharam que dei uma de Tarso Cadore depois da sibutramina. Eu não tenho dúvidas. Eu sei que aquele “Você curte uma rola?” foi de verdade. Não há experiência em pornografia que poderia me proporcionar a imaginação de criar aquele negócio balançando sem ver nada. Por sorte, não aconteceu nada. Isso que é serviço de quarto.





O Primeiro Teste: Viajando como Casal, Pijamas e Roupões no Hotel

15 04 2009
É quase um Big Brother particular. Ou 'little', dependendo do caso. Mas isso não importa...né?

É quase um Big Brother particular. Ou 'little', dependendo do caso. Mas isso não importa...né?

Primeira viagem como casal? Ah, que gostoso, sair da zona de conforto urbana e ver se a relação sobrevive à ação da areia e do sol. Conferir se o outro tem uma boa habilidade em passar protetor solar em suas costas, qualidade desejável em futuros maridos que não querem que você se queime pelas costas.

No entanto, ficar sozinho assim, logo no começo, pode intensificar aquelas coisinhas chatas que a gente finge que não vê pra falar que está tudo bem e não precisar voltar ao bate-papo do uol para caçar namoro. Fiquemos atentos aos detalhes. É melhor previnir do que tentar arranjar namorado comprando camisinha na farmácia mais próxima.

Tudo pronto, gasolina no carro e alcool no porta-malas. Logo cedo, levo minha primeira crítica: minha mala é grande demais e mal cabe no carro. Você, como eu, caro leitor neurótico, deve entender as razões de uma mala grande. Eu preciso ter opções. É preciso ter alternativas. Um ladrão chegar e falar: “e aí, cumpadi, quer morrer afogado ou queimado?” é uma coisa, é mais tranquilo poder escolher. Mas se ele vier e disser: “tu vai morrer agora à bala”, isso sim é desesperador.

Passado o estresse do embarque, encaramos o desafio do silêncio no carro. Preste atenção se ele batuca enquanto ouve Fergie no rádio. É um mal sinal. Beyonce é aceitável. Saber cantar alguma do NXZero vale menos 20 pontos e cantarolar Charlie Brown Jr. merece um acidente de carro gravíssimo como multa por mau comportamento. Valorize o silêncio, ele evitará que você diga bobagens e até soa confortável. Levei um livro, deixei-o no colo mas não abri, para parecer culto e ter opções caso o papo ficasse chato.

Até então, tudo ia bem. Minha companhia foi muito amável, vez em quanto tirava a mão do câmbio para colocar na minha perna e atropelou menos pombos na estrada do que faço com minha bicicleta na cidade. Eu esperava algo romântico como que me carregasse pelas escadas e se oferecesse para pagar a minha diária do hotel. No entanto, subimos de elevador e paguei a conta com tickets-refeição que economizei.

Chegando no quarto, já era noite e hora de dormir. Ou não. Nesse momento de indefinição sobre se ataco ou não ataco, resolvi desfazer as malas enquanto ele trocava de roupa. Fulano entra no banheiro e sai de pijama. De pijamas. Quer algo mais “não vou transar contigo” do que usar pijamas? Pior que isso, só se ele resolvesse cortar o mal pela raiz decepando o pênis e entrando para alguma seita budista ou simplesmente virando indie.

Hotel é a oportunidade de você usar pouca roupa e vestir roupão sem que isso seja socialmente reprovado. É quando a gente tem orgulho de vestir quase nada para atender a porta e constranger os funcionários da hotelaria, fazendo aquela cara de “eu estava transando e você interrompeu. No entanto, mesmo com essa chance de ouro, minha companhia resolveu usar um pijama. Semi-pijama, já que se tratava de uma bermuda velha e uma camiseta que dizia vestibular “Uninove 2005. Matricule-se já”.

Mesmo com tantos pontoss negativos, aos poucos, a situação foi se tornando mais aceitável quando percebi sua tolerância pelo meu medo de chinelos de dedo e pavor de grãos de areia. São poucas pessoas que tem coragem de ficar ao lado de alguém quando este usa sapatos na praia. Deve ser amor.

Foram apenas três dias, ou quase 72 horas bem aproveitadas. O tempo passou rápido e eu quase nem percebi que tinha perdido um episódio do Zorra Total. Ele ficou bravo quando descobriu que comprei metade da feirinha de artesanato, aumento o PIB da cidade em cerca de 22% mas o enganei jogando Dan Tops em sua direção.

E mesmo com os surtos paranóicos, ligações escondidas, toalhas roubadas do hotel, declarações escatológicas de amor e celulares atirados pela janela, tudo foi bem, a tudo isto sobreviveu e tem, por bem, atrapalhado em muito a minha criatividade para postar. Afinal, reclamação, ironia e celibato imposto pela sociedade sempre foi meu forte. Como mulher de malandro ou simplesmente Alanis Morissette, estou à espera de um bom pé na bunda para escrever melhor. Até lá.





Abstinência Virtual e Descoberta Pessoal

8 12 2008

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Já tem data: 05 de janeiro de 2009.  Vou sair de São Paulo rumo a Gentio do Ouro, no interior do interior da Bahia, cidade onde há apenas um telefone. E ele é público. Serão 7 dias sem contato algum com internet, televisão ou qualquer tipo de distração midiática. Um desafio rumo à minha abstinência virtual e descoberta pessoal.

Tenho uma pequena história pra contar sobre o que me está me levando a viajar para aquele lugar:

– Meu avô, da parte mais brasileira da família, chamava-se Horbal. Registrou a si mesmo aos 12 anos de idade porque sua mão não achava necessário.  Aos 19 anos, apaixonou-se por Januária, se casou e tiveram duas filhas. Ele gostaria de chamá-las de Agrícola e Pecuária, mas foi proibido pela mulher. Juntos, escolheram os nomes Benigna e Benília.

– Com o nascimento da segunda filha, Januária teve logo sintomas de eritroblastose fetal e precisava de uma vacina cara, vendida apenas em Salvador, ou morreria. Meu avô juntou as economias, vendeu algumas cabeças de gado e partiu correndo buscar a salvação de sua mulher. Comprou a vacina e logo retornou. Nessa época, as injeções eram feitas por tubos de vidro, mais simples. Na hora da aplicação, o médico deixou a seringa cair no chão e ela quebrou. Januária morreu.

– Com duas filhas pequenas, Horbal veio para São Paulo. Tornou-se militar e trabalhava enquanto a filha mais velha cuidava da mais nova. Em uma visita à Bahia, apaixonou-se por Eunice, que era irmã de Januária, e sua prima em segundo grau. Casaram-se e voltaram a São Paulo. Eunice é minha avó.

– Horbal e Eunice tiveram muitos filhos. Pela pobreza e falta de informação, alguns vieram a morrer. A primeira filha mulher de minha avó chamava-se Maria. Morreu com apenas 2 meses. Ela engravidou novamente e resolveu chamar a segunda filha de Maria novamente. O bebê morreu com apenas dois meses, mais uma vez. A próxima chamava-se Neide e correu tudo bem. Ao todo, tiveram 8 filhos, dos quais 3 morreram.

– Uma das maiores tristezas do meu avô era que nenhum de seus filhos e netos conheciam sua cidade nnatal, Gentio do Ouro. Lá, ainda mora a mãe de minha avó,  minha bisavó, de 99 anos que cuida de sua tia-avó, de 101 anos. Em sua última viagem à Bahia, Horbal levou uma câmera para gravar todos os lugares que ele gostaria que sua família conhecesse. Não conseguiu terminar. Morreu uma semana antes de voltar á São Paulo.

– Quando meu avô faleceu, a cidade decretou um luto não-oficial. Moradores, amigos e parentes da cidade de 10.000 habitantes fizeram um pequeno cortejo, levando o caixão por alguns lugares da cidade. Usaram a câmera para filmar o velório e gravaram cenas adicionais de lugares que Horbal não teve tempo de registrar. Eu nunca tive coragem de assistir à essa fita.

– Um tio-avô fez um livro registro, mapeando toda a árvore genalógica da família entre casamentos, descasamentos, mudanças de cidade e desaparecimentos misteriosos. Seu último registrou foi o casamento do meu pai e o nascimento de seu filho, Felipe, que sou eu.

– Agora, em 2009, resolvi ir para a cidade de Gentio do Ouro para conhecer melhor minha bisavó e o lugar de onde tanta gente da minha família saiu. Em 5 de janeiro de 2009, minha bisavó Januária completa seus 100 anos. Ela já não enxerga mais e ouve muito pouco, mas conta suas histórias a quem quiser ouvir, sem saber com quem está.  Eu estarei lá.

Gentio do Ouro era uma área rica em diamantes há décadas atrás. Hoje, não é mais. Como diria Fiona Apple, What’s so impressive about a diamond except the mining?”