Aprendendo a Dirigir com GTA e Carmaggedon

13 04 2009
A única coisa boa de dirigir é drive-thru e drive-in e drive over old ladies

A única coisa boa de dirigir é drive-thru e drive-in e drive over old ladies

Há pessoas que simplesmente não nasceram para dirigir. Não rola. Se o volante não é teu amigo, sente-se e aprecie o motorista particular do ônibus mais próximo. Trocar de marcha é chato, o banco é desconfortável e aqueles espelhos na lateral e no teto do carro não são bons para acertar a franja. Sem falar que o cinto de segurança não é nada indie.

Claro que não iria dar certo. Para quem foi criado jogando Carmaggedon, Driver e GTA, o trânsito parece ser uma forma de conseguir pontos e completar missões. Atropelar velhinhas inocentes, fazer acrobacias perigosas e correr de mafiosos cubanos com charutos na mão. Na vida real, a coisa é bem menos engraçada. Dá um pouco de dó de atropelar as velhinhas, mesmo com elas atravessando na diagonal com o sinal aberto e os unicos pontos que você ganha são na carteira por dirigir no rodízio.

Nunca fui um bom motorista. Acho que até por isso que não consegui tirar carta ainda. Durante meu exame prático, estacionei tão longe da guia que o fiscal e eu tivemos que pegar um taxi até a calçada. A minha baliza consistia num movimento circular aleatório onde eu, com os olhos fechados, rezava pedindo para que o carro milagrosamente se encaixasse naquela vaga tres vezes maior que o veículo. Deus, claro, manteve a sua pose blasé e me ignorou solenemente enquanto eu manobrava com o freio de mão puxado.

É fácil ter inveja dos meus amigos que apresentam a CNH nas baladas como documento de identificação. Dá vontade de queimar e mandar para o inferno, mas a gente só não faz isso porque fomos de carona e andar por aí sem carta dá multa e apreensão do veículo. O carona é aquele amigo que senta do teu lado e fala: “cuidado”, “olha a lombada” e “você sabe mesmo ir pra lá?”. Não é a toa que airbag de fábriga vem só para o motorista.

Na real, dá vontade de pular essa parte chata de dirigir. Ir do transporte público até o motorista particular assim, direto, sem ter que conhecer a CET. Chega a dar medo ver quantos carros preto e prata circulam pela cidade entupindo as vias. É o caos, tudo parado, menos o metrô, onde pessoas se acotovelam por 1/4 de m². É tão classe-média querer um carro popular. Seja ousado, peça um personal driver.

Eu já desisti de dirigir e o banco já desistiu de me dar dinheiro para ter um carro. Tudo isso apóia meu discurso ecológico que serve como desculpa para o meu fracasso automobilístico. Então, é por isso que digo que com tanta sujeira e poluição, tenho certeza que um dia, aqui em São Paulo, depois de uma garota de 5 minutos com enchente de proporções bíblicas, iremos todos nos afogar em nossa própria merda, pegar os nossos carros para fugir e ficar presos num engarrafamento na Paulista.

Seja legal, troque seu carro por uma bicicleta, patinete, skate ou patins. Mas, se for de carro, me chame.





Assustando Estranhos, Gentileza Espontânea e Ataque Terrorista

8 04 2009

Sabe, em um mundo ideal, nós ainda nos assustaríamos com loucos que falam sozinhos nas ruas, pessoas que cospem no chão e trombadinhas que tentam roubar celular mas que desistem quando veem que o modelo da vítima é ultrapassado.  Em um lugar onde a culpa da falta de educação é a falta construções escolares e não do excesso de ensino de má qualidade, a gente ainda é capaz de se apavorar com atos genuínos de gentileza.

Dia desses, um rapaz entrou no metro com um sorriso no rosto. A roupa estava um pouco amassada e ele carregava uma mala estranha, envelhecida, com cara de roubada de algum brechó do centro da cidade. Espontaneamente, o portador começou a distribuir um festival de “bom dia” a todos os presentes, cumprimentando um a um pela mão.

Ok, isso não é ser gentil, é apenas ser estranho, concordo. E o seu comportamento poderia ficar AINDA mais estranho. O máximo de simpatia permitido no metrô pela manhã é pedir desculpas quando pisa no pé de alguém e só. Encoxadas inocentes devem ser perdoadas também.

Aos poucos, o homem foi ficando incomodado com a recusa de alguns passageiros em trocar um cumprimento. Sua voz ficava mais grave e os apertos de mão pareciam mais bruscos. Quando chegou na metade do vagão, desistiu de continuar a odisséia simpática. Passou a circular pelo trem de um lado para o outro, olhando para o chão, apertando sua mala contra o corpo. Ele falava baixo, como se fosse em alguma outra lingua.

Os demais passageiros, assustados, começavam a conversar entre si e a observar atentamente o comportamento estranho do ex-gentil. Aos poucos, disfarçadamente, dois homens se levantaram e se aproximaram das portas. Uma mulher ficou próxima do botão de pânico do metro e senhoras rezavam o terço.

Uma mãe de família pedia a seus filhos que não olhassem diretamente para o moço ao mesmo tempo em que executivos sacavam seu telefone e o deixavam em mãos, com o número 190 pré-discado. Parecia o início de uma tragédia. Talvez fosse o primeiro atentado terrorista em São Paulo e o primeiro, no mundo, a ser causado pela falta de simpatia.

Uma explosão de uma bomba. Era esse o fim. A mochila velha na verdade estaria guardando uma quantidade de explosivos suficiente para fazer a linha verde do metrô estourar. Os jornais agradeceriam que não foi na linha vermelha, que transporta milhões de pessoas e dezenas de metros quadrados e José Padilha teria um tema para um novo filme.

Mas não, em um certo momento, o homem se sentou e abriu a mochila. Alguns fecharam os olhos, pedindo perdão enquanto os bombadinhos do vagão ensaiavam uma intervenção, sem saber se os seus músculos tinham força ou são apenas inchados. Ele tira um celular e atende: “Oi amor, estava esperando você ligar. Eu aceito. Quero casar contigo”. A bomba explodiu e eu não via alguém tão verdadeiramente feliz em muito tempo.





Breast pockets N-E-V-E-R-M-O-R-E!

19 01 2009

Por Paulo Delgado

Bom, eis o motivo da meu humor deficiente: fucking breast pockets! Sim… Aqueles bolsos amigos e tão oportunos para quando se precisa de uma caneta, um lenço, um qualquer-coisa-que-caiba-ali! Decidi, pro meu próprio bem, abolir todos eles da minha vestimenta. Ou melhor, do meu comportamento ao usar camisas que tenham esses malditos bolsos na altura peito.

Quinta-feira, dia 15, eu tinha um aniversário para ir. Aliás, em um lugar bem gostoso e com pessoas queridas. Mas, como estou sem carro e sem dinheiro (possuía míseros R$ 2,50 no bolso da mochila), tive que ir embora antes da meia-noite a fim de contar com o transporte público. Ótimo: tirei o Bilhete Único da mochila e passei na catraca do metrô para então, nesse momento, por força do hábito e da comodidade, abrigar o cartão no bolso-do-peito da camisa.

evilbreastpocketsBolsos super oportunos fromhell!

Desço na estação Vila Madalena e já me preparo para correr para o ponto de ônibus, afinal já era mais de meia-noite e sabe Deus quantos ônibus ainda iriam passar. Na escada da saída do metrô, sinto meu cartão no bolso da camisa: ele estava lá. Na metade do último quarteirão até o ponto, avisto o ônibus passando e o farol abrindo – preciso dizer que corri desvairadamente?

Entrando no ônibus me dou conta de que talvez estivesse sem a chave de casa: quem iria abrir a porta pra mim? Não tinha ninguém em casa! Mas nem tive tempo de pensar nisso, pois comecei a enfiar as mãos loucamente em todos os bolsos da minha roupa – pois é, o cartão não estava mais no bolso da camisa.

Entrei em pânico. Mas pensei rápido: como não sei se vou entrar, vou descer aqui, voltar, procurar meu cartão e ligar pro meu irmão, que devia estar de carro em algum lugar ali perto.

Gastei meus penúltimos centavos no pagamento de um ponto de ônibus, que no furor do meu estresse virou dois. Andei 4 quarteirões de ônibus para voltar correndo até o ponto de partida e procurar por um maldito cartão azul, que estava numa maldita capinha amarelo-grifa-texto (cor que eu escolhi, diga-se de passagem, para que eu não perdesse o cartão tão facilmente… quanta ironia)! Isso ignorando o fato de que era quase 00h30 e peve, singelo, estava a solta, desvairado, olhando a calçada.

Minha avó me liga pra saber onde eu estou: tranquilizo-a — “Estou com meu irmão, vó. Volto com ele.”

Não. O cartão não foi encontrado. Incrível como à meia-noite, quando não tinha viv’alma naquele ponto, um cartãozinho some. Será que foi o vento que levou? Será? M-E-S-M-O?

Fiquei tão transtornado que nem parei pra pensar que podia ter caído no ônibus na hora que eu ESCALEI aqueles degraus. Ou na hora que eu saí pelas escadas do metrô. Ou sei lá… Só sei que liguei pro meu irmão, interrompi o show dele, camelei por uns quarteirões, encontrei-o, curti o resto do show e finalmente retornei são e salvo ao conforto do lar.

Nem preciso dizer a moral da história, né?
NUNCA MAIS uso breast pockets. E-V-E-R!





Ano Novo, Comunistas e Bagdá Paulistana

1 01 2009
Já Baixou sua nova versão de Jesus para 2009? Siga o comunismo culinário.

Já Baixou sua nova versão de Jesus para 2009? Siga o comunismo culinário ou peça uma massagem.

Final de ano é a época em que ficamos bondosos e glutões, esquecendo a quantidade de comida necessária para preencher nossos estômagos, intestinos e pequenos pratos artesanais de porcelana fajuta. 

O clima não contagia à todos. Ainda me lembro de parar no semáforo sentado no banco do passageiro enquanto meu pai dirigia o carro. Garotos vinham oferecem uma ‘limpeza’ de vidro ou venda de glicose, logo negada pelo velho. “Por que não dar dinheiro a eles, pai”?, eu dizia, antes de associar caridade à isenção fiscal. “Está virando comunista agora? Comece então doando seus sapatos”, gritava o velho. Boa resposta.

Minha mãe e eu não virávamos comunistas. Ainda votamos no PFL como boa classe-média assustada com o poder de compra das classes mais baixas que entupiam o shopping. Nosso consolo era levar um bom e farto prato de comida ao porteiro, esperando que ele parasse de confundir a minha voz com a da minha irmã no interfone e chamar minha mãe de senhora.

Hoje, te confesso que a bondade cessou e eu como bem menos. Meu conceito de comida mudou, passou a precisar de telefonemas e terceiros e não estou falando de delivery, mas, mesmo assim, observo essa data com uma certa graça.

Reunido na casa de amigos, vejo 2009 chegar junto com garrafas de bebidas que não cabem em meu fígado. Lembro-me que tenho plano de saúde e seguro de vida. Se morrer, faço questão que meus pais gastem os 80 mil reais de prêmio na cerimônia do velório / enterro. Sugiro a The Week, se for em dia da semana, com meu caixão boiando na bela piscina enquanto os convidados se esbaldam em aperitivos gostosos ao som de Flávia Durante

Voltando ao reveillon, vejo no céu, à meia-noite, um espetáculo de bombinhas e fogos de artifício de segunda mão. Gritos de “Feliz Ano Novo” embargados pela Cidra na veia e abraços coletivos sinceros. Uma lágrima corre pelo meu rosto. Quando chega ao meu lábio, vejo que era vodca que caiu da taça de alguém.

Nesse momento, São Paulo vira Bagdá. Vizinhos que sempre se odiaram apontam seus fogos para a janela alheia, se vingando pelo poodle quee insite em fazer cocô em suas plantações de pimenta ou insistência em dançar tango usando botas ortopédicas após à meia-noite, incomodando aqueles que moram assoalho abaixo.

Ligo para saudar um amigo muito querido que participa de uma festa organizada junta por seus pais separados. Ele reclama do clima antissocial dos convidados, já fazendo uso da nova regra ortográfica. Aproveito para dizer que isso é coisa de gente final, social é coisa de pobres, ora, se não o Bolsa Família não seria ‘pograma social’.

Os prédios mais bonitos estão vazios. Nenhuma luz acesa na sala ou na cozinha. Coisa de quem tem dinheiro para viajar para lugares decentes nessa época do ano. Mas eu prefiro acreditar que estão todos reunidos, em assembleia, na casa do sindico, decidindo se adotam, ou não, a remoção do trema nos circulares dos elevadores e nas atas de reunião.

Com o passar do tempo, a euforia coletiva causada pela mistura de álcool e carência afetiva cessa e paramos de nos achar lindos, maravilhosos, inteligentes e extremamente interessantes. Desse modo, os convidados se isolam por cantos dispersos com seus celulares e/ou consciência e os indies esvaziam a dança. Até The Killers parece mais triste agora, mesmo na sua nova fase neo-gay.

Eu ganho uma massagem de um simpático japonês que atende por Verde. Seus dedos batem nas minhas costas e sinto todas as mágoas de miguxa, caboclo, momentos Malhação e traumas freudianos pularem do meu corpo. Ao final, sinto vontade de pagá-lo mas Verde não cobra pelo serviço. Diz um “Feliz 2009” e volta para a festa. Esse sim um verdadeiro comunista. Esse pessoal com as mãos calejadas de atividades proletárias sabe realmente como tocar um corpo. Acho que vou ligar para o porteiro…





Desmitificando o Natal e Ano Novo

17 12 2008

 

E que o espirito do Natalino esteja convosco.

E que o espírito do Natalino esteja convosco.

 

Ah, o Natal, lindo e reluzente em uma São Paulo iluminada por piscas-piscas, neve artificial e trombadinhas natalinos. Não há nada mais doce do que ver garotos e garotas sentando, sem pudor, no colo de um velhinho de saco enorme e pedindo brinquedos e desejos secretos. E o melhor: o idoso nem precisa pagar por isso.

Quem nasce meio torto ou fica depois de alguns goles (doses) de whisky percebe que, no final do ano, aquela sua tia chata fica mais chata, que o seu primo talvez não seja filho do seu tio e que você não é o neto preferido de sua avó, ficando para trás na lista da herança. Mas quem queria herdar mesmo a dentadura e o óculos com correntinha pra não cair do pescoço?

Observe a ceia com atenção. Veja seu tio gordo enchendo o prato de peru e a pança de panetone, acompanhado de Coca Zero, para não engordar. Os presentes do amigo-secreto acompanhado de etiquetas de preço e embalado em sacolas de lojas chiques onde, com certeza, não foram comprados. A satisfação de alguém que recebe e diz: “Ah, uma Bíblia Atualizada! Muito obrigado, eu estava precisando!”…quando alguém diz o nome do presente que recebeu, com certeza, não gostou e está tentando assimilar a idéia de maneira menos traumática.

Não sei quem inventou essa história de colocar duas festas tão grandes em datas tão próximas. Desse jeito, o feriadão passa despercebido. A empresa onde eu trabalho conta esse período todo como férias e, quando eu vejo, já voltei a trabalhar ainda curtindo a ressaca do dia 24. Só vou curar a bebedeira do ano novo perto do Carnaval e aí, você já sabe.

Mas fim de ano é tempo de paz na Terra, de dar sapatadas e não jogar granadas, de dizer que ex bom é ex morto sem pensar em Suzana Vieira, em desejar que ex-morto não seja um zumbi invadindo teu quarto a noite, de saber que teu sobrinho ruivo é mais ruivo que você e que seu pai, por ouvir The Natinal, talvez seja mais indie também.

Eu diria que se Jesus veio para trazer vida nova e renovação, que nascesse no ano novo. Logo no começo, sabe? Em janeiro. Seria uma boa data. Desse modo, o final do ano poderia ficar dedicado para que a gente pudesse pensar nos mistérios da vida, em como um churrasco grego pode custar um real e vir acompanhado de um suco de laranja que você pode tomar à vontade. Engraçado como tem gente que fica à vontade em gastar uma moeda e comer carne de origem duvidosa, seja no Centro de São Paulo ou na Rua Augusta.

Nesse final de ano, sentando no colo de um Papai Noel imaginário, de um Papai do Céu solidário ou de um Cara Lá de Cima simpático, peço que você e toda sua família aprendam a andar do lado direito das escadas-rolantes e vias públicas, que ganhem bexigas maiores para que possam beber cerveja sem entupir a fila do banheiro da balada e que observem essa data sem a convulsão de bondade social provocada pelos piscas-piscas espalhados pela cidade comprados na 25 de Março. Beijo, me mandaumpedaçodoseuperu.





iPod Shuffle roubado, sim, de novo!

5 11 2008

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Depois de uma festa de Halloween indie com fantasias, bebidas e Klaxons, percebo na minha mochila que meu querido iPod Shuffle não está lá. Foi roubado por algum outro ladrão indie que levou consigo uma bela de uma playlist perfeita, mas tudo bom, tudo bem.

Eu e muitos outros, com a popularização da música portátil, nos acostumamos a ficar com os fones enfiados nos ouvidos, colocando um pouco de trilha sonora londrina nessa dura vida paulista. Se não há romantismo no Minhocão, Fiona Apple guia meus caminhos. Se o metrô tá lotado, Mika me deixa ver a vida mais divertida.

Um pouco de felicidade em mp3, uma vida em 2 gigabytes e uma grande chance de escapismo de um cotidiano chato. A distração, que vira mania, falam que até causa surdez. Mas a gente nem liga. Devem criar uma cura pra isso algum dia e as pessoas voltarão a ouvir. A não ser que surja um Ensaio sobre a surdez.

Para o que não há remédio é essa indiferença, esse mundinho particular. Não que não seja ótimo ir trabalhar ouvindo Coldplay, ir pra faculdade pulando com Bloc Party ou dormir com Snow Patrol. Mas, pouco a pouco, nos desligamos do mundo externo, dos outros, do que há no caminho.

A realidade não é bonita, sabemos. Há gente que usa pochete, corrente de prata grossa, regata, calça tactel, entre outros. Mas, mesmo assim, melhor encarar as coisas de frente e tentar ver porque é que a gente está aqui de verdade. Deixe de ouvir e cante as músicas que gosta.

Vamos deixar de ser esses jovenzinhos com seus fones de ouvido brancos estéreis. Não quero mais ser branco e estéril. Sem meu iPod Shuffle, estou mais colorido e de mente fértil. Pelo menos até comprar meu iPod Touch.





A Tática de Dormir no Metrô e a Vergonha Alheia

9 10 2008

 

Tem gente que dorme no Metrô. Em ou sentado, eu sou uma dessas pessoas. A prática foi adquirida com muitos anos de experiência. Durmo pouco, cerca de 4 horas por dia. Tenho um sono agitado. Sonho com dinossauros me perseguindo, mas eles nunca me comem. Acordo assustado, frustrado. É um caos.

Mas no Metrô não. É um sono suave, embalado pelo leve balançar da composição. Com o aperto, da estação Brás, me sinto acolhido. O calor humano chega a ser aconchegante. Quando estou sentado, apóio a cabeça no vidro se estiver com muito sono. Se o cansaço for pouco, procuro manter a concentração e segurar, fazendo força no pescoço pra não cair no ombro ou no colo de alguém. Já fiz amizades importantes pedindo desculpas por ‘pescadas involuntárias’.

Em pé é um pouco mais difícil. Segure com força no ferro apoiado no teto, encoste a testa nos braços e descanse. Deixe o sono REM (R.E.M. ajuda a dormir também)  te tomar até ouvir “desembarque pelo lado esquerdo do trem”. Caso algum solavanco mais brusco te faça perder o equilíbrio, finja que tropeçou. Funciona. Jamais deixe perceberem seu sono. Quando o vagão está cheio é impossível cair. Evite tirar seu pé do chão. Você pode não conseguir colocá-lo de volta, tipo, nunca mais.

Dia desses, o destino me pegou. Estava eu sentado no banco, dormindo, a caminho da estação Alto do Ipiranga da Linha Verde. Lá é tranqüilo, mas eu estava em um sono agitado. Via pessoas entrarem e saírem do vagão sem parar e era como se o trem seguisse a ritmo de trem-bala. Mas, toda vez que abria os olhos, observava o vazio e o silêncio. Melhor dormir.

E fui assim até a estação Paraíso. Eis que sou acordado um leve tocar de dedos no meu ombro. Eu estava suado, suado, suado. E eu não suo nem que fique em uma academia por 2 horas (não é empírico, jamais passo de 30 minutos). Perturbado pelo meu estado, observo que metade do vagão olha em minha direção, esboçando risos (não sorrisos) e atenção.

Calma, calma, está tudo bem“, me diz o rapaz, ainda com a mão em meu ombro. Pergunto o que aconteceu e ele me diz: “Você estava agitando, mexendo o corpo no banco, com os braços cruzados e batendo o pé, dizendo ‘Não, não, não, agora não. Nãaaaaaao….agora naaaaao! Não quero‘”.

Coberto de gargalhadas alheias, eu agradeço, pego minhas coisas e desembargo do lado esquerdo do trem. Moral da história: cuidado ao dormir no Metrô com frequência. Você pode começar a se sentir em casa. Agradeço a Deus por não ter sido um wet dream…ou será que foi? E você, já dormiu onde não devia?