Cuidado! Está cada vez mais difícil morrer de morte morrida

30 06 2009

Já era de se esperar. O mundo não vai acabar em gripe suína, como não acabou em gripe aviária ou gripe espanhola. A não ser que as pessoas espirrem até seus cérebros explodirem, a humanidade não será dizimada ao som de um enorme “atchim”. Enquanto isso, procuramos novas formas de acabar com nossa raça, como nas pipocas de microondas cancerígenas.

Enquanto isso não acontece, eu te pergunto: para onde as pessoas foram? O planeta cresceu? E explico: quando eu era menor, o grande problema nas escolas era a superpopulação. Como se o mundo fosse um enorme presídio, professoras de aventais estranhos explicavam que a taxa de natalidade estava alta e que chegaria um dia em que as pessoas brigariam não por comida, mas por um espaço. O m² ficaria tão caro que casais fariam sexo apenas para economizar um lugar.

A engenharia genética ajudando casais a terem filhos em progressão geométrica, gêmeos começando a vida sexual aos 12 anos, corinthianos multiplicando-se na era Ronaldo e parece está chegando a hora do fim do oxigênio disponivel na Terra! Mas não! Ainda há espaço. Sim, eu sei que o metrô e o trêm são apertados, que há trânsito, mas não é exatamente como se alguém tivesse que te levar de cavalinho ao trabalho, né? Sempre imaginei que seria algo como aquelas pirâmides montadas por garotas de torcida americanas e que o céu seria o limite. São Paulo viraria um formigueiro e as pessoas na base seriam pisoteadas sem dó!

Aí a gente liga o jornal e entende tudo: aviões caindo diariamente, atropelamentos, assaltos, pessoas engasgando com bolachas de maizena, balas Soft perdidas no meio do estômago e concluo: Acho que nunca se morreu tanto no mundo. Ou será que a imprensa nunca falou tanto de morte como agora? A taxa de mortalidade está incrível. Viver se tornou realmente perigoso e acabou com qualquer risco de superpopulação.

O problema é que agora ficou complicado. As pessoas vivem mais. Antes se ia ao hospital para morrer. Hoje, é possível fazer um remendo e viver ate os 90 anos e a gente sabe que velhinhos acima de 70 anos são assassinos em potencial quando se trata de dirigir e, claro, se for para ele matar alguém, será você jovem, bonito e de vida sexual ativa.

Talvez seja muita neurose se preocupar com a morte, com tanta coisa acontecendo em vida, mas precisamos ficar atentos. Há uma onda estranha por aí. A morte anda matando mais do que antigamente. De forma sádica e cruel, ela prefere algo mais Jogos Mortais do que a mãe de Bambi. Cuidado, está cada vez mais difícil morrer de morte morrida.





Herança Digital e Para Quem Fica Seu Username Quando Morrer?

2 04 2009

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A gente passa a vida toda a evitar, mas chega um dia em que acontece. Aí é o fim. Jesus te chama e o Paraíso deixa de ser estação de metrô. Ou então, o diabo te recebe e Inferno deixa de ser nome de balada ruim. Os gays magrinhos viram purpurina e os mais gordinhos, lantejoula.

Neste dia, a sua família se despede, o velório é realizado na sua balada preferida com lista VIP para os mais próximos e seus amigos enchem a cara em sua homenagem. O caixão bóia na piscina da The Week. Afinal, morrer não parece tão ruim para alguém cujo único esporte praticado é fugir de bala perdida, certo? Um dia a gente perde o j0go.

Além de deixar a prestação da Renner atrasada para a sua família, é possível que você tenha acumulado durante sua vidinha medíocre algumas coisas interessantes. Uma certa dose de meritocracia informal da internet, um blog com acessos moderados e um MSN com contatos pegáveis divididos pela disponibilidade semanal de cada um além de um perfil no Orkut. Essa é a sua herança e ela vale mais do que sua coleção de revistas de mulher pelada. (a não ser que você tenha aquela da Xuxa).

Todo esse espólio, tudo que você acumulou durante essa sua vida indie geek ex-nerd não pode ser perdido dessa maneira, certo? Eu sei hoje que não posso morrer amanhã porquê não haverá quem atualize meu twitter por mim. A não ser que o céu tenha wi-fi, o que será que acontece com nossas contas, perfis e cadastros feitos pela gente quando morremos?

Não há como atualizar. Você está morto, óbvio, e teus amigos não sabem a senha. Então você fica lá, vivo para a memória do Google, cheio de scraps pornográficos de SPAMs malditos no teu Orkut. A sua reputação fica cada vez mais imunda e as pessoas começam a duvidar se você realmente morreu ou se apenas não tem mais dinheiro para pagar o Speedy. Para alguns, é melhor ser morto que pobre.

Para evitar esse tipo de desconforto no teu descanso eterno, passe tua senha para alguns amigos confiáveis. Distribua entre eles quem fica com o quê. Eu, por exemplo, deixo este blog para minha amiga @ana_freitas, do Olhometro e meu Twitter para @brunogalhardi. Já o Facebook fica para o @schizophrenic, que quase me ameaçou de morte se eu não o fizesse. Se não derem conta do recado, deletam o perfil e tocam suas vidas como se Felipe Torres fosse nome de guerrilheiro das FARC. (e é!)

O meu Orkut fica para @roupasuja. A garota pode até deixar uma mensagem como: “Oi, Felipe Luno não pode mais atender porque pediu para subir e foi sentar no colo de Jesus (não o Luz). Caso queira algum ‘contato’, ligue para (11) XXXX-XXXX. A gente resolve. Beijos”. Dúvido que o público se interesse.

E tudo bem se o fim não for como no Jogo da Vida, onde a gente conta quanto dinheiro você tem, quantos filhos teve e multiplica pelo número que der na roleta. O que vale mesmo pra quem fica são teus contatos e o que eles podem fazer com isso. Se não há dinheiro escondido debaixo do teu colchão, é melhor deixar alguém que eles possam levar para a cama.  Não se esqueça: antes de morrer, avise seus amigos, deixe tudo pré-agendado. Aguardo suas senhas como comentário a esse post.





Guia de Sobrevivência: Como Não Morrer

29 10 2008
Balas Soft - Assassinando crianças desde 1980

Balas Soft - Assassinando crianças desde 1980

 

Muita gente fala sobre o horror de morrer queimado, afogado na Praia Grande, sufocado com saco plástico do Barateiro ou cortando os pulsos com a faquinha de rocambole Pamco, lentamente. O PinkEgo (uepa!) vem dizer pra você que na verdade há formas muito piores de se morrer e você deve fazer o máximo, enquanto vivo, para evitá-las.

Um grande pavor que acomete aos adolescentes é o de passar mal no banheiro e não me refiro à dores de barriga ou adorações ao vaso sanitário. Estamos falando sobre desmaiar no banho, cair pelado no chão do box e ter o desprazer de ter seus pais arrombando a porta ou pior, um bombeiro, te resgatando sem roupa. Você, não ele.

Quando pequeno e não muito esperto, coloquei escondido uma bala Soft, aquela assassina de crianças, na boca e fui tomar meu curto banho. Em meio às ensaboações, comecei a engasgar com a arma em forma de doce. O ar me faltava, tentei apertar o peito e comprimi-lo pra fazer a bala pular e nada. Meu medo não era encontrar Jesus. Mas ter a minha mãe, arrombando a porta, me vendo pelado, morto pela bala que ela proibiu que eu comesse. Imagine o desgosto. Eu provavelmente iria para o inferno por desobedecer meus pais.

Ainda mais novo, quando jogava futebol, eu era um ótimo goleiro. Desenvolvi a habilidade de agarrar bolas difíceis porque ninguém me escolhia pra jogar na linha. Ultimo a ser selecionado, me sobrava mesmo o gol. Pouco a pouco fui aprendendo a pular e alcançar os cantos.

No entanto, havia um ponto fraco: meu nariz. Apesar de ser bonitinho, ele é frágil. Sempre que atingido, sangra sem parar, vira uma cachoeira de glóbulos brancos e vermelhos. Acredito hoje que meus amigos faziam apostas parar acertar no alvo. 

Uma vez, fui atingido e saí em disparada em direção ao meu apartamento. Eu morava no 16º andar e fui de escadas. Desmaiei lá pelo 10º andar. Acordei com uma comitiva de moradores e síndicos, me carregando escada abaixo. Dada a quantidade de sangue na escadaria, eles acharam que alguém podia ter sido assassinado. Um dos moradores estava armado para proteger a vizinhança. Mas não, era apenas o meu nariz.

Eu não sei nadar, nunca soube e sei que não vou saber. É simplesmente a evolução humana. Eu não nada. Caminho pela piscina de um lado para outro, com água abaixo do umbigo, claro. Na praia, ao lado do meu pai, que tem 1,90m, eu fico mais tranquilo. Pena que meu calção começou a cair e eu não conseguia ajeitá-lo. Fiquei tão preocupado com as minhas poucas vestes, não notei que o mar começava a me engolir.

Não pedi socorro. Não tentei pular. Com medo de ser descoberto sem calção ou resgatado por um salva-vidas que pudesse fazer respiração boca a boca enquanto eu ficava à milanesa na praia, resolvi aceitar o destino. Virar oferenda para Iemanjá. Mas ela me rejeitou. A maré abaixou, eu levantei o meu calção e comprei um Chicabon.

Não tenho medo de morrer. Não tenha medo de morrer. Apenas espero fazê-lo com graça e um pouco de dignidade. Partir desta para a melhor deixando uma boa imagem, sem expor o meu corpinho. Já avisei meus pais que se eu entrar no banheiro e demorar a sair, não batam na porta, não façam escândalo, não arrombem o cômodo. Esperem a decomposição antes de abrir. Quero ser um belo cadáver.