Eu fui criado para o trabalho. Desde pequeno, papai me ensinou a ser um bom proletário. Aos dois meses de vida, recebi a tarefa de construir meu próprio berço com peças de lego. O projeto ficou pronto quando eu já tinha 2 anos e adaptado a pequena cama a ter um teto removível e abrigo nuclear.
Meus primeiros brinquedos eram guardados numa caixa de ferramentas. Minha habilidade em manusear o martelo era bem aproveitada no primário, quando professoras cheirando a leite materno azedo me erguiam em seus ombros para pregar algum colega mal-comportado no teto da sala.
Ainda assim, fui uma criança feliz. Enquanto outros jogavam bola, eu jogava peteca com minha prima albina calculando o ângulo da queda do pequeno artefato e anotava em um caderno. Demos nosso primeiro beijo enquanto compartilhavamos nosso amor por Báscara e sonhávamos com um filho chamado Delta e o casal Cateto e Hipotenusa.
Meu pai envelhecia orgulhoso enquanto eu chegava em casa com medalhas, troféus e uma coleção de olhos roxos por ter apanhado do movimento anti-CDF da escola pública do bairro. Cada agressão era fotografada e exibida com orgulho em reuniões familiares: “Tá vendo esse? Foi quando ele foi o primeiro a lembrar a professora que ela deveria passar lição de casa para o feriado prolongado. E tem esse também, quando ele sugeriu a abolição do intervalo para um novo seminário de matemática”.
Chegada a hora de escolher uma profissão, era óbvio. Eu seria engenheiro. Entrei na faculdade e ali era meu lugar. Um ambiente pintado com verde-hospitalar, uma sala cheia de lápis bem apontados e jovens prontos a aprender. O lugar, predominantemente masculino, evitava qualquer distração, apesar de que a canela peluda da Profa. Maria foi o mais perto que cheguei de algo feminino durante os meus 5 anos de estudo.
Mas não bastava ser bom, ser eficiente ou ter meias limpas. Era preciso ter algo mais. O mercado é exigente e meu pai também. Terminada a graduação, ele me colocou para fora de casa e disse que o mundo me criaria a partir de agora. tentei ganhar algum dinheiro equilibrando compassos e esquadros no farol, furei minha mão e ganhei poucos trocados. Ninguém queria saber de fórmulas matemáticas. Ninguém dava bola para o número do PI, que não varia com a inflação, dólar e gordura saturada!
Foi aí que eu cansei. Cansei de tentar ser mão-de-obra qualificada. Cansei dessa vida de ser um projeto proletário que constrói a felicidade alheia. Não queria mais ser Taiwan, que estampa objetos de tecnologia complexa utilizados por simplórios que assistem a TV comendo Fandangos.
Entrei num salão de cabeleireiros e coloquei a tabela períodica inteira em meus fios de cabelo. Fiz peeling, spinning e comprei um Crocs. Acessei a internet e fiz um twitter.Resolvi desenvolver a minha genialidade em 140 caracteres e te garanto que tem sido mais atraente do que expressar meu vazio sem limites tentando ser Taiwan.




