Quero Ser Taiwan: Como Eu me Tornei Mão-De-Obra Qualificada

8 06 2009

Eu fui criado para o trabalho. Desde pequeno, papai me ensinou a ser um bom proletário. Aos dois meses de vida, recebi a tarefa de construir meu próprio berço com peças de lego. O projeto ficou pronto quando eu já tinha 2 anos e adaptado a pequena cama a ter um teto removível e abrigo nuclear.

Meus primeiros brinquedos eram guardados numa caixa de ferramentas. Minha habilidade em manusear o martelo era bem aproveitada no primário, quando professoras cheirando a leite materno azedo me erguiam em seus ombros para pregar algum colega mal-comportado no teto da sala.

Ainda assim, fui uma criança feliz. Enquanto outros jogavam bola, eu jogava peteca com minha prima albina calculando o ângulo da queda do pequeno artefato e anotava em um caderno. Demos nosso primeiro beijo enquanto compartilhavamos nosso amor por Báscara e sonhávamos com um filho chamado Delta e o casal Cateto e Hipotenusa.

Meu pai envelhecia orgulhoso enquanto eu chegava em casa com medalhas, troféus e uma coleção de olhos roxos por ter apanhado do movimento anti-CDF da escola pública do bairro. Cada agressão era fotografada e exibida com orgulho em reuniões familiares: “Tá vendo esse? Foi quando ele foi o primeiro a lembrar a professora que ela deveria passar lição de casa para o feriado prolongado. E tem esse também, quando ele sugeriu a abolição do intervalo para um novo seminário de matemática”.

Chegada a hora de escolher uma profissão, era óbvio. Eu seria engenheiro. Entrei na faculdade e ali era meu lugar. Um ambiente pintado com verde-hospitalar, uma sala cheia de lápis bem apontados e jovens prontos a aprender. O lugar, predominantemente masculino, evitava qualquer distração, apesar de que a canela peluda da Profa. Maria foi o mais perto que cheguei de algo feminino durante os meus 5 anos de estudo.

Mas não bastava ser bom, ser eficiente ou ter meias limpas. Era preciso ter algo mais. O mercado é exigente e meu pai também. Terminada a graduação, ele me colocou para fora de casa e disse que o mundo me criaria a partir de agora. tentei ganhar algum dinheiro equilibrando compassos e esquadros no farol, furei minha mão e ganhei poucos trocados. Ninguém queria saber de fórmulas matemáticas. Ninguém dava bola para o número do PI, que não varia com a inflação, dólar e gordura saturada!

Foi aí que eu cansei. Cansei de tentar ser mão-de-obra qualificada. Cansei dessa vida de ser um projeto proletário que constrói a felicidade alheia. Não queria mais ser Taiwan, que estampa objetos de tecnologia complexa utilizados por simplórios que assistem a TV comendo Fandangos.

Entrei num salão de cabeleireiros e coloquei a tabela períodica inteira em meus fios de cabelo. Fiz peeling, spinning e comprei um Crocs. Acessei a internet e fiz um twitter.Resolvi desenvolver a minha genialidade em 140 caracteres e te garanto que tem sido mais atraente do que expressar meu vazio sem limites tentando ser Taiwan.





Dia de Maldade: Como Matar (N)o Trabalho

27 04 2009
Bad worker. No donut for you.

Bad worker. No donut for you.

Sabe, trabalhar é bom, faz bem e enobrece o homem. Mas bom mesmo, de verdade, é morrer queimado. Quero matar quem falou um dia que trabalhar é algo que faz bem ao ego, que dá confiança e faz com que as pessoas tenham um propósito na vida. Confesso que eu era muito feliz quando minha maior responsabilidade era saber a programação inteira do Warner Channel, Sony e AXN.

Mesmo assim, quando a gente cresce, a vida cobra e passa a ser necessário ter dinheiro no bolso. Seus pais não vão te dar e, sinto te dizer, mas se você não tiver dinheiro, aquela garota bonita também não vai dar pra você. A atividade proletária exige dedicação e não há esforço maior do que acordar 6 horas da manhã e fingir bom humor matinal durante o café da manhã institucional.No final do dia, você olha para as pessoas que saem no horário, que não precisam fazer hora extra e pensa: “malditos”.

Com o tempo, ficamos dopados com aquela quantia que é depositada mensalmente em nossas contas bancárias. Chefes, cheques e débitos viram parte do cotidiano. MSN e Orkut são distrações durante um dia de trabalho e você passa a ser o mestre na habilidade do Alt+Tab, para fingir que está fazendo algo importante.

Quando você se acostuma e aceita essa rotina, chega um funcionário novo, daqueles dedicados, com um sorriso no rosto e que está realmente feliz por ter arranjado um novo emprego. Dessa forma, ele poderá levar a namorada dele ao cinema, ao shopping e ao motel. “Maldito”, você pensa. Com o espírito ainda não envenenado pelo cansaço, ele é dinâmico e eficiente, faz tudo rápido. É simpático. Chega no horário e não delega funções.

É por meio desse filho da mãe que seu chefe vai descobrir o quando você não é eficiente, que chega atrasado todos os dias e que, ao contrário do que você diz, não demora 3 dias inteiros para fazer uma arte gráfica para uma página A4. Nessa situação, não resta muita alternativa: é preciso matá-lo.

Não estou falando em assassinato, nem encorajando o homicídio. Seja mal. Seja um Gossip Girl do mundo corporativo. Seja uma Flora do escritório. Um Dexter do papo do café. Mate seu espírito feliz e sorridente. Demonstre o quanto o seu chefe é ruim, como não há perspectivas de aumento…e crescimento? Só da dívida no banco, baby! Em breve, ele passará a usar mais o twitter, a se distrair comparando o horóscopo na Folha e no Terra e te apoiará quando você disser que demora 4 dias para editar uma foto. Eu ainda não matei ninguém, mas acho que levei um tiro.





A Ambição de Um Proletário: O Futuro do Estagiário

19 03 2009

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Quando se evolui de estagiário para funcionário, é como se uma nova etapa na vida tivesse início. Agora, você faz parte do corpo da empresa e será chamado de colaborador, empregado, recurso humano ou qualquer outra baboseira que é puro eufemismo para proletário.

Na verdade, a palavra proletário vem daqueles que trabalhavam duramente para alimentar a sua prole. Com o aquecimento global e aumento do uso de cuecas skinny, talvez você não tenha filhos, mas a realidade é a mesma. No entanto, com o ticket-refeição dá pra enganar o estômago. Há um restaurante perto do meu trabalho que chamo de Meio Quilo, pois com o que eu ganho de vale-alimentação, é só o que dá pra comer. 500 gramas, no máximo.

Ah, e tem o convênio também. Mas não se engane, no plano de saúde que você é autorizado a utilizar, o mais básico, há uma fila de espera enorme para marcar com o endocrinologista e dermatologista. A galera sai correndo achando que dá pra emagrecer tomando hormônios e tenta resolver a cutis antes do próximo verão.

Mas, com o tempo, esses benefícios se tornam pouco para você. O seu décimo-terceiro salário, na verdade, é menor do que o desconto do INSS dos seus chefes. O cartão de ponto tem uma foto que não te favorece e o porteiro continua te confundindo com o motoboy. Esta vida de trabalhador parece sem sentido e mobral.

Aí vem a ambição! Logo, você quer crescer, virar chefinho, ter alguém pra mandar. Chega um estagiário e voce pede que ele te prepare um café. Passa tarefas como organizar arquivos e regar as plantas do escritório para alguém que ganhe menos. Em pouco tempo, você deixa de atender o telefone e filtra os e-mails.

Hoje, eu sou uma pessoa que quer secretárias. Duas. Uma gostosa e burra, outra feia e grossa. E que quem me ligue tenha que falar com as duas antes de chegar a mim. E que nesse intervalo, toque uma musiquinha de caminhão de gás. Quero também uma sala fechada, pequena, com janela. E persianas nas janelas, para eu fechar quando chamar alguém lá dentro e for dar uma come.

Não se esqueça de participar da nossa “Promoção: Essa História daria um filme!”

Gostaria também de poder chegar no trabalho mais tarde, reclamando do trânsito. Trânsito aéreo, com o excesso de helicopteros que ocupam os céus como o meu. E sair mais cedo, falando que tenho consulta no médico enquanto minha mulher e minha amante me aguardam, nessa ordem. Contratar alguém pra fazer todo o meu trabalho e me enviar o meu e-mail, para aprovação. É isso que eu quero ser quando crescer: alguém que aprova as coisas. E você? Por um ambiente de trabalho mais Vitor Fasano.





Sex and The Office

13 03 2009
Porn Shui: posição perfeita que consiste em posicionar o seu monitor de forma que ninguém possa vê-lo enquanto você assiste a pornografia no trabalho.

Porn Shui: posição perfeita que consiste em posicionar o seu monitor de forma que ninguém possa vê-lo enquanto você assiste a pornografia no trabalho.

Nas grandes empresas e corporações sempre há uma grande carga de tesão reprimido. Quem é mais sensitivo, percebe. Quem é mais tarado também. Essa história de usar roupa social é, na verdade, uma forma de evitar o contato social. Com tanta proibição, já vi gestor ficar alegrinho de ver o pulso da secretária ou o tornozelo da estagiária.

No horário do almoço, se o restaurante é perto, dá pra fazer uma rapidinha. Dirigentes que saem juntos, em um carro só, tem rumo certo ao almoço executivo no motel mais próximo. Para os estagiários, com 30 minutos de almoço, resta usar o Orkut e o MSN para marcar a ação de mais tarde.

A libido é tão solta no ar que já vi motoboy encoxando a máquina de xérox enquanto ninguém vê. O porteiro que acaricia os mamilos enquanto observa a tiazinha do almoxarifado no elevador pela câmera de segurança e o jornalista, que todo mundo diz que não pega ninguém, mas que na verdade só ataca quem é notícia e evita dar o furo.

Todo mundo pega todo mundo. A hierarquia proletária se inverte com presidentes que curtem uma dominatrix da equipe de apoio. Aqui, vale a méritocracia, quem é melhor na cama, e não na mesa do escritório, se dá bem. Promoções relâmpago depois de uma boa transa, demissões depois de uma recusa e uma gratificação em dinheiro, que serve como flerte.

Mas calma. Se ninguém te pega, se o ambiente de trabalho parece asséptico e insosso, relaxe. Você sempre pode apelar para o delivery. Chamar um amigo e apresentar a empresa a ele, levá-lo à sala de suprimentos e mostrar todo o seu material. Se o chefe chegar, não faça cara de Sulfite A4. Chame para participar.

Vamos abolir a hierarquia oficial do trabalho. Se esse é o ambiente onde você passa maior tempo do dia, que tal, em vez de estar pouco se fudendo com os compromissos do seu setor, fazer amor com colegas de carteira de trabalho. Gente bem comida não precisa de cesta básica e visita menos o plano de saúde com dor de cabeça e depressão. Trabalhe melhor: transe e seja feliz.





Eu, Proletário

12 11 2008

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Antes de a gente comecar a trabalhar, nao temos a compreensao perfeita de como funciona a vidinha daqueles pobres seres que realmente trabalham e nao estou falando de jornalistas, a profissao clube de vantagens. Falo de gente que poe a mao na massa mesmo, atende os telefones de verdade, bate o cartao e nao pode faltar. Numa empresa, a pessoa mais necessaria é a mocinha do café. Se um diretor faltar, esta tudo bem, mas o que fazer para manter a staff acordada quando nao há café?

Confesso que me dava uma certa coceira ouvir falar em INSS, reclamacoes sobre chefes, fofocas de Departamento Pessoal e papos de café. Tinha alergia a ticket-alimentacao e me causava um certo desconforto pensar em décimo-terceiro salario, que, pra mim, nada mais era do que o presentinho de Natal.

A minha iniciacao no mundo da labuta se deu no estágio, onde passei a valorizar o dinheiro que ganhava nos meus 30 ou 31 dias trabalhados. Em seguida, fui contratado e fomos descobrindo que era preciso tirar um certo documento azul, grande, que mais parecia um passaporte. E era meu passaporte rumo a aposentadoria. Seria uma viagem longa, mas o destino estava tracado.

Hoje, nao poucas vezes me vejo passando o bilhete unico na catraca da faculdade, consultando minha conta bancaria no dia do pagamento pra ver se tudo caiu direitinho e torcendo pra que um diretor ou outro caia tambem ou saia da empresa no estilo Big Brother.

Com tudo isso, aprendemos que os juros do cartao de crédito podem doer mais que sexo mal feito, que compromisso com datas de vencimento devem ser levados mais a sério que relacionamentos e que da pra enrolar lojas como Renner e C&A comprando e nao pagando. Licoes da vida de quem comeca a trabalhar e que, provavelmente, nunca vai parar.

Quando a gente nao trabalha, ficar doente é um saco. Voce perde o dia, fica de molho em casa assistindo Marcia Goldschimt. Conhece a programacao da TV de cor. Hoje, tudo que sei sao as estacoes das linhas do metro. Eu, que sempre me gabei de ser saudável, comemorei hoje uma conjuntivite. Dois dias de licenca. Virei proletario de carteirinha de convenio.





Banheiro Unissex aumenta produtividade

11 10 2008

A empresa em que eu trabalho desesperadamente estudava formas simples e eficientes de integrar seus funcionarios. Ha um certo tempo, as pessoas deixaram de se cumprimentar e o rigor profissional, ao inves de ditar um bom comportamento, deu lugar a uma burocracia absurda. Colaboradores, de diferentes niveis, que nao se davam bem socialmente, utilizavam formalidades para anular o trabalho do companheiro. As pessoas eram simplesmente chatas, grosseiras e impessoais umas com as outras.

Vendo sua receita diminuir no final do ano, producao em queda e aumento de custos, a companhia passou a realizar mensalmente festas tematicas como: festa da primavera, festa junina, bolo dosaniversariantes, Dia das Criancas , entre outras datas comemorativas. Nao deu certo. O resultado foi pifio. Era comum ver os empregados comendo seu pedacinho de bolo com os colegas do setor e logo voltando ao trabalho. Fofocas, mentiras, chefes comendo estagiarios(as). Tudo por debaixo dos panos.

Dada a profundidade do caso, fui chamado para contribuir com ideias, afinal, trabalhando no Departamento de Comunicacao, eu devia fazer parte da Comissao que investigava uma forma de resolver o problema. Como um Jack Bauer do Jornalismo, de cara, levei uma bronca pela minha incopetencia em nao solucionar o que nao me cabia, mas tudo bem. Mais um hadouken do universo. Entre idéias absurdas, como instituir o uso obrigatorio de uniformes a todos os niveis, obrigar todos a passarem um dia por semana em outro setor ate o dia do ‘traga seu cachorrinho para o trabalho‘, sugeri, em tom de brincadeira, a idéia do banheiro UNISSEX. E TOPARAM!

Logo no dia seguinte, os diretores mandaram remover os mictorios do banheiro masculino. Em seguida, uma parede foi derrubada e entao se fez o tal do banheiro unissex, a ser usado por todos, indiferente de raca, credo ou se faz xixi em pé ou sentado. Era bizarro voltar do almoco, entrar no banheiro e ver a secretaria passando po compacto no rosto. Mais estranho era saber que a minha chefe tinha problemas, por isso tomava tanto Activia. Estava acostumado a ver o diretor sair sem lavar as maos apos o xixi, mas com a presenca feminina forte naquele lugar, ele passou a molhar os dedinhos usando até o sabonete liquido disponivel. Observar a mudanca de humor antes e pós banheiro ainda me da calafrios!

As pessoas comecaram a se cumprimentar, encontravam-se quase sempre no mesmo horario no banheiro, por acaso e por destino. A flora intestinal de cada um passou a ditar os encontros e uma nova rede social no trabalho foi possivel devido as necessidades mais basicas do ser humano.

Aumentaram meu salario, o papel higienico ganhou perfume, homens e mulheres ganharam armarios pra guardar os seus pertences e todos vimos pessoas bem menos enfezadas em seu ambiente do trabalho. Para solucionar alguns problemas mais serios de mau-humor, prepotencia, arrogancia, tensao sexual e assedio moral, propus a criacao de um Dark Room institucional. esta sendo discutida a aprovacao. Aguarde.