
A única coisa boa de dirigir é drive-thru e drive-in e drive over old ladies
Há pessoas que simplesmente não nasceram para dirigir. Não rola. Se o volante não é teu amigo, sente-se e aprecie o motorista particular do ônibus mais próximo. Trocar de marcha é chato, o banco é desconfortável e aqueles espelhos na lateral e no teto do carro não são bons para acertar a franja. Sem falar que o cinto de segurança não é nada indie.
Claro que não iria dar certo. Para quem foi criado jogando Carmaggedon, Driver e GTA, o trânsito parece ser uma forma de conseguir pontos e completar missões. Atropelar velhinhas inocentes, fazer acrobacias perigosas e correr de mafiosos cubanos com charutos na mão. Na vida real, a coisa é bem menos engraçada. Dá um pouco de dó de atropelar as velhinhas, mesmo com elas atravessando na diagonal com o sinal aberto e os unicos pontos que você ganha são na carteira por dirigir no rodízio.
Nunca fui um bom motorista. Acho que até por isso que não consegui tirar carta ainda. Durante meu exame prático, estacionei tão longe da guia que o fiscal e eu tivemos que pegar um taxi até a calçada. A minha baliza consistia num movimento circular aleatório onde eu, com os olhos fechados, rezava pedindo para que o carro milagrosamente se encaixasse naquela vaga tres vezes maior que o veículo. Deus, claro, manteve a sua pose blasé e me ignorou solenemente enquanto eu manobrava com o freio de mão puxado.
É fácil ter inveja dos meus amigos que apresentam a CNH nas baladas como documento de identificação. Dá vontade de queimar e mandar para o inferno, mas a gente só não faz isso porque fomos de carona e andar por aí sem carta dá multa e apreensão do veículo. O carona é aquele amigo que senta do teu lado e fala: “cuidado”, “olha a lombada” e “você sabe mesmo ir pra lá?”. Não é a toa que airbag de fábriga vem só para o motorista.
Na real, dá vontade de pular essa parte chata de dirigir. Ir do transporte público até o motorista particular assim, direto, sem ter que conhecer a CET. Chega a dar medo ver quantos carros preto e prata circulam pela cidade entupindo as vias. É o caos, tudo parado, menos o metrô, onde pessoas se acotovelam por 1/4 de m². É tão classe-média querer um carro popular. Seja ousado, peça um personal driver.
Eu já desisti de dirigir e o banco já desistiu de me dar dinheiro para ter um carro. Tudo isso apóia meu discurso ecológico que serve como desculpa para o meu fracasso automobilístico. Então, é por isso que digo que com tanta sujeira e poluição, tenho certeza que um dia, aqui em São Paulo, depois de uma garota de 5 minutos com enchente de proporções bíblicas, iremos todos nos afogar em nossa própria merda, pegar os nossos carros para fugir e ficar presos num engarrafamento na Paulista.
Seja legal, troque seu carro por uma bicicleta, patinete, skate ou patins. Mas, se for de carro, me chame.



