Sobre Como eu Roubei uma Empregada

23 09 2009

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Assédios sexuais em elevadores, mulheres que andam de salto e causam enxaquecas, brigas conjugais por roubos de chip, crianças que choram demais, moradores que pisam na grama, carros mal-estacionados e monopólio da churrasqueira costumam ser os principais motivos de briga no condomínio onde eu moro. No entanto, tudo assumiu uma proporção frente ao problema maior: eu roubei uma empregada.

Não é fácil chegar em casa e sentir aquele cheiro de comida gostosa pronta. Eu não sou casado. Minha mãe trabalha e meu cachorro não cozinha. A rotina é simples: chegar em casa, pegar o arroz, colocar no microondas e fritar uns nuggets. Não sou uma pessoa menos feliz por isso. A praticidade roubou a realidade de uma boa refeição pré-sono, eu sei, mas seria injusto bater na minha mãe por causa de comida. Prefiro dedicar outros motivos a isso.

Sendo assim, é uma afronta ver que meu olfato era aguçado pela casa ao lado. Encontrar os moradores daquele apartamento de manhã no elevador era insuportável. Aquela cara de bem comidos, sorriso no rosto, barriguinha que não ronca e outras  características de quem dedica a mesma atenção à cama e à mesa. Isso tinha que terminar de algum modo. Não é inveja. É igualdade social.

Logo, resolvi investigar. Se fosse a mulher que cozinhasse, ofereceria sexo gratuito em troca de comida. Se fosse o marido, eu comprava um livro de receitas. Ou o contrário. A responsável pelas refeições daquela casa era uma moça que se chama Roberta* (*nome fictício para defender a sua integridade física e moral). Fiz a Roberta uma proposta que ela não poderia recusar: trabalhando em minha casa, ela não precisaria limpar ou atender o telefone, bastava fazer as melhores refeições do mundo. Compensei a lealdade com algumas notas e logo ela se mudou para a minha casa.

Os primeiros dias foram uma maravilha. Roberta chegava cedo, fazia o café da manhã e eu me sentia num comercial de Doriana. O relacionamento familiar melhorou e até meu cachorro passou a ser alimentado diariamente. Minha mãe se sentiu um pocuo desprestigiada, mas as porções de bolinhos de chuva faziam qualquer um engolir o orgulho com gosto.

Quando tudo vai bem, o caos se aproxima. A contratação de Roberta gerou um mal-estar. Os moradores do apartamento, que perderam os serviços da moça, se sentiram lesados. Cortaram relações conosco e não nos convidaram mais para festinhas no salão de festas do prédio. Além disso, contrataram uma outra empregada, de um outro apartamento. Isso gerou em efeito em série, gerou uma alta no mercado especulativo de empregadas ao ponto de que muitas passaram a semana em suas casas, de folga, selecionando propostas.

Pessoas com fome tendem a ficar mais agressivas e o síndico convocou uma reunião. Após uma sessão tensa, com ameaças de morte e prestação de contas sobre licitações duvidosas de compra de samambaias artificiais, ficou estabelecido: “Nenhum morador está autorizado a contratar qualquer tipo de prestador de serviço que atue na residência de outro condômino. E pisar na grama continua proibido, exceto o responsável pela limpeza da placa de “Proibido Pisar na Grama” por motivos óbvios”.

Continuamos com Roberta. Com o tempo, ver a casa desarrumada não compensava mais ter as refeições de uma novela de Manoel Carlos. Era desconfortável sentar no lixo empilhado e brigar com as formigas por um pedaço de pão. Tentamos renegociar, mas Roberta estava acostumada com o conforto proletário ali estabelecido. Era hora de mandá-la embora. Chamei para conversar e dispensei a moça. Ela chorou um pouco, eu chorei mais e ouvi a barriga roncar. Era a aposentadoria do meu olfato e a certeza do fim de uma era de benção alimentar.

Para quem ficou triste, Roberta logo foi recontratada pelo apartamento vizinho, que dispensou a sua empregada, que voltou a trabalhar no apartamento antigo, que também mandou a diarista anterior embora. Hoje, o síndico pensa em convocar uma nova reunião para decidir se as despesas com as demissões podem ser incluídas no condomínio em forma de rateio. Prefiro gastar meu dinheiro na linha de congelados Sadia.





iPod Shuffle roubado, sim, de novo!

5 11 2008

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Depois de uma festa de Halloween indie com fantasias, bebidas e Klaxons, percebo na minha mochila que meu querido iPod Shuffle não está lá. Foi roubado por algum outro ladrão indie que levou consigo uma bela de uma playlist perfeita, mas tudo bom, tudo bem.

Eu e muitos outros, com a popularização da música portátil, nos acostumamos a ficar com os fones enfiados nos ouvidos, colocando um pouco de trilha sonora londrina nessa dura vida paulista. Se não há romantismo no Minhocão, Fiona Apple guia meus caminhos. Se o metrô tá lotado, Mika me deixa ver a vida mais divertida.

Um pouco de felicidade em mp3, uma vida em 2 gigabytes e uma grande chance de escapismo de um cotidiano chato. A distração, que vira mania, falam que até causa surdez. Mas a gente nem liga. Devem criar uma cura pra isso algum dia e as pessoas voltarão a ouvir. A não ser que surja um Ensaio sobre a surdez.

Para o que não há remédio é essa indiferença, esse mundinho particular. Não que não seja ótimo ir trabalhar ouvindo Coldplay, ir pra faculdade pulando com Bloc Party ou dormir com Snow Patrol. Mas, pouco a pouco, nos desligamos do mundo externo, dos outros, do que há no caminho.

A realidade não é bonita, sabemos. Há gente que usa pochete, corrente de prata grossa, regata, calça tactel, entre outros. Mas, mesmo assim, melhor encarar as coisas de frente e tentar ver porque é que a gente está aqui de verdade. Deixe de ouvir e cante as músicas que gosta.

Vamos deixar de ser esses jovenzinhos com seus fones de ouvido brancos estéreis. Não quero mais ser branco e estéril. Sem meu iPod Shuffle, estou mais colorido e de mente fértil. Pelo menos até comprar meu iPod Touch.





Repost: Sobre Ipod Shuffle, Roubo e MGMT

8 10 2008

Quem é dono de um iPod Shuffle sabe. É um desafio fazer uma setlist perfeita que te acompanhe o dia inteiro. Essa brincadeira de enviar as músicas para o aparelho, deixando que ele as embaralhe e toque na ordem que quiser é divertida até um certo tempo. Depois, vira um transtorno ficar pulando faixas até chegar em algo que voce queira realmente ouvir.

Para evitar o pula-pula, passei uma tarde inteira selecionando, faixa a faixa, o que realmente iria pro tal iPod Shuffle. Revirei coletaneas, versoes demo, b-sides, singles. Um trabalho de horas, escolhendo realmente músicas que seriam imperdíveis ou, como queiram, impuláveis. E consegui! Uma setlist perfeita que aproveitava o amplo 1gb disponível!

Fui trabalhar ouvindo Bloc Party, depois MGMT, Feist, Calvin Harris, uma ou outra de Ladytron, tinha até uma da Britney Spears, confesso. No entando, como sabemos, o destino cruel e Murphy me add! Há a apenas duas quadras de casa, tres meliantes (eu adoro essa palavra) me abordaram. De cara, pediram o celular. Eu nao quis dar. Pediram meu iPod. Nao entreguei. Depois de muita resistencia e tentativa de fuga de minha parte, perdi tanto o meu smartphone quando minha setlist perfeita.

Chorando como Paris Hilton após perder o ultimo capitulo da temporada de Gossip Girl no TiVo, fui para casa lamentando a má sorte e planejando o que eu poderia vender para comprar um novo mp3. Pensei em comprar aqueles descartáveis, que quebram um dia depois da garantia vencer.

Já no dia, seguinte, indo ao trabalho, procurei me distrair cantando Muse, fora do tom, claro. A rotina parecia ainda mais dura sem musica, sem a tal setlist perfeita e o tal celular esperto. Eis que entao Jesus me add! A Policia Civil de Sao Paulo, rápida como o FBI, conseguiu, por meio de uma operacao meio PF, deter tres caras que portavam um celular suspeito. O celular esperto gravou a lista de contatos no chip, o que facilitou a busca pelo dono, que sou eu.

Enquanto o policial tentava se comunicar comigo, avisando que tinha achado um aparelho enorme, cheio de teclas, eu perguntava: mas cara, cade o iPod? cade o iPod?

A caminho da delegacia eu ja pensava em vender o orelhao portatil para financiar um novo Shuffle. Arrependido de tantas vezes que pulei músicas que poderia ter ouvido, de como eu maltratava a bateria do coitado e o tratava como um primo pobre do Nano.

Chegando la, uma supresa. Meus pertences estavam em cima da mesa do delegado. Entre eles, um pequeno pedaco de metal e plastico em cor prata: meu iPod Shuffle! mas, antes de tocá-lo e recuperá-lo, era preciso reconhecer os tais meliantes. E, para isso, eu precisava ter certeza.

Na cena seguinte, nada de glamour. Nao há vidro fume, nem uma grande sala de reconhecimento. Tampouco me ofereceram rosquinhas. Por meio de um olho magico quadrado em uma porta, vi cinco rapazes segurando plaquinhas com numeros de 1 a 5 escritos a mao. Logo de cara, já vi. Reconheci os numeros 2 e 4. O terceiro, o meliante que ficou mais distante naquele instante, eu nao reconheceria.

Fim de processo, de volta a minha casa, pluguei o brinquedo para ver e admirar minha setlist perfeita. Intacta. Last.fm rolando e observo os scrobblings: durante o periodo breve de sequestro do iPod, os ladroes ouviram MGMT por cerca de 47 execucoes. Viciaram nos descamisados psicodélicos. Só Time To Pretend tocou mais de 20 vezes.

Nunca achei que um dia seria assaltado por ladroes indie ou que curtissem MGMT. Desde entao, a setlist perfeita segue intacta, conservada na memoria de 1gb desse curioso brinquedinho da Apple.