Ano Novo, Comunistas e Bagdá Paulistana

1 01 2009
Já Baixou sua nova versão de Jesus para 2009? Siga o comunismo culinário.

Já Baixou sua nova versão de Jesus para 2009? Siga o comunismo culinário ou peça uma massagem.

Final de ano é a época em que ficamos bondosos e glutões, esquecendo a quantidade de comida necessária para preencher nossos estômagos, intestinos e pequenos pratos artesanais de porcelana fajuta. 

O clima não contagia à todos. Ainda me lembro de parar no semáforo sentado no banco do passageiro enquanto meu pai dirigia o carro. Garotos vinham oferecem uma ‘limpeza’ de vidro ou venda de glicose, logo negada pelo velho. “Por que não dar dinheiro a eles, pai”?, eu dizia, antes de associar caridade à isenção fiscal. “Está virando comunista agora? Comece então doando seus sapatos”, gritava o velho. Boa resposta.

Minha mãe e eu não virávamos comunistas. Ainda votamos no PFL como boa classe-média assustada com o poder de compra das classes mais baixas que entupiam o shopping. Nosso consolo era levar um bom e farto prato de comida ao porteiro, esperando que ele parasse de confundir a minha voz com a da minha irmã no interfone e chamar minha mãe de senhora.

Hoje, te confesso que a bondade cessou e eu como bem menos. Meu conceito de comida mudou, passou a precisar de telefonemas e terceiros e não estou falando de delivery, mas, mesmo assim, observo essa data com uma certa graça.

Reunido na casa de amigos, vejo 2009 chegar junto com garrafas de bebidas que não cabem em meu fígado. Lembro-me que tenho plano de saúde e seguro de vida. Se morrer, faço questão que meus pais gastem os 80 mil reais de prêmio na cerimônia do velório / enterro. Sugiro a The Week, se for em dia da semana, com meu caixão boiando na bela piscina enquanto os convidados se esbaldam em aperitivos gostosos ao som de Flávia Durante

Voltando ao reveillon, vejo no céu, à meia-noite, um espetáculo de bombinhas e fogos de artifício de segunda mão. Gritos de “Feliz Ano Novo” embargados pela Cidra na veia e abraços coletivos sinceros. Uma lágrima corre pelo meu rosto. Quando chega ao meu lábio, vejo que era vodca que caiu da taça de alguém.

Nesse momento, São Paulo vira Bagdá. Vizinhos que sempre se odiaram apontam seus fogos para a janela alheia, se vingando pelo poodle quee insite em fazer cocô em suas plantações de pimenta ou insistência em dançar tango usando botas ortopédicas após à meia-noite, incomodando aqueles que moram assoalho abaixo.

Ligo para saudar um amigo muito querido que participa de uma festa organizada junta por seus pais separados. Ele reclama do clima antissocial dos convidados, já fazendo uso da nova regra ortográfica. Aproveito para dizer que isso é coisa de gente final, social é coisa de pobres, ora, se não o Bolsa Família não seria ‘pograma social’.

Os prédios mais bonitos estão vazios. Nenhuma luz acesa na sala ou na cozinha. Coisa de quem tem dinheiro para viajar para lugares decentes nessa época do ano. Mas eu prefiro acreditar que estão todos reunidos, em assembleia, na casa do sindico, decidindo se adotam, ou não, a remoção do trema nos circulares dos elevadores e nas atas de reunião.

Com o passar do tempo, a euforia coletiva causada pela mistura de álcool e carência afetiva cessa e paramos de nos achar lindos, maravilhosos, inteligentes e extremamente interessantes. Desse modo, os convidados se isolam por cantos dispersos com seus celulares e/ou consciência e os indies esvaziam a dança. Até The Killers parece mais triste agora, mesmo na sua nova fase neo-gay.

Eu ganho uma massagem de um simpático japonês que atende por Verde. Seus dedos batem nas minhas costas e sinto todas as mágoas de miguxa, caboclo, momentos Malhação e traumas freudianos pularem do meu corpo. Ao final, sinto vontade de pagá-lo mas Verde não cobra pelo serviço. Diz um “Feliz 2009″ e volta para a festa. Esse sim um verdadeiro comunista. Esse pessoal com as mãos calejadas de atividades proletárias sabe realmente como tocar um corpo. Acho que vou ligar para o porteiro…





Sobre Jesus, Madonna e Como Se Tornar Indie

21 12 2008

Sábado a noite, dia internacional da vadiagem e falta de vergonha na cara e os celulares nao atendem. Um silencio no twitter e MSN vazio. É nessas horas que eu pergunto onde estao as pessoas solteiras, promiscuas e bonitas de São Paulo? No show de Madonna? Talvez.

Fica dificil pra gente que nao é muito chegado a tradicoes entender porque as pessoas somem e ficam boas no final do ano. Se bom fosse realmente bom, Crianca Esperanca daria ibope. Claro que eu respeito o calendario holandes e as comemoracoes irlandesas, mas as celebracoes cristas andam meio fora de moda, nao?

Eu gosto de Jesus. Ele é um dos meus barbudinhos preferidos, com todo o respeito, junto com o Che, Camelo e Marx. Gosto do menino Jesus tambem apesar de achar triste que ninguém dá bola para os Treis Reis Magos.

Poxa, eles estavam lá! Seguiram uma estrela no céu e chegaram na hora certinha, levando presentes e tudo. E oura: eles eram tres, eram reis e magos! Hoje em dia ou se é presidente ou macumbeiro. Ninguém mais é rei ou mago.

Agora é hora de scraps coloridos no orkut, de mensagens aleatorias distribuidas pelo msn e dos maravilhosos e-mails encaminhados de boas festas, traduzidos do tupi ao croata. Entao é Natal e o que voce fez, pergunta Simone, com sua voz inesquecível, naquele Powerpoint que sua tia te encaminhou.

Pra descansar de tudo isso, nessa semana o blog vai publicar a série Como Se Tornar Indie, dividida em 7 passos. Na verdade 6, porque descansarei no sétimo dia.





Desmitificando o Natal e Ano Novo

17 12 2008

 

E que o espirito do Natalino esteja convosco.

E que o espírito do Natalino esteja convosco.

 

Ah, o Natal, lindo e reluzente em uma São Paulo iluminada por piscas-piscas, neve artificial e trombadinhas natalinos. Não há nada mais doce do que ver garotos e garotas sentando, sem pudor, no colo de um velhinho de saco enorme e pedindo brinquedos e desejos secretos. E o melhor: o idoso nem precisa pagar por isso.

Quem nasce meio torto ou fica depois de alguns goles (doses) de whisky percebe que, no final do ano, aquela sua tia chata fica mais chata, que o seu primo talvez não seja filho do seu tio e que você não é o neto preferido de sua avó, ficando para trás na lista da herança. Mas quem queria herdar mesmo a dentadura e o óculos com correntinha pra não cair do pescoço?

Observe a ceia com atenção. Veja seu tio gordo enchendo o prato de peru e a pança de panetone, acompanhado de Coca Zero, para não engordar. Os presentes do amigo-secreto acompanhado de etiquetas de preço e embalado em sacolas de lojas chiques onde, com certeza, não foram comprados. A satisfação de alguém que recebe e diz: “Ah, uma Bíblia Atualizada! Muito obrigado, eu estava precisando!”…quando alguém diz o nome do presente que recebeu, com certeza, não gostou e está tentando assimilar a idéia de maneira menos traumática.

Não sei quem inventou essa história de colocar duas festas tão grandes em datas tão próximas. Desse jeito, o feriadão passa despercebido. A empresa onde eu trabalho conta esse período todo como férias e, quando eu vejo, já voltei a trabalhar ainda curtindo a ressaca do dia 24. Só vou curar a bebedeira do ano novo perto do Carnaval e aí, você já sabe.

Mas fim de ano é tempo de paz na Terra, de dar sapatadas e não jogar granadas, de dizer que ex bom é ex morto sem pensar em Suzana Vieira, em desejar que ex-morto não seja um zumbi invadindo teu quarto a noite, de saber que teu sobrinho ruivo é mais ruivo que você e que seu pai, por ouvir The Natinal, talvez seja mais indie também.

Eu diria que se Jesus veio para trazer vida nova e renovação, que nascesse no ano novo. Logo no começo, sabe? Em janeiro. Seria uma boa data. Desse modo, o final do ano poderia ficar dedicado para que a gente pudesse pensar nos mistérios da vida, em como um churrasco grego pode custar um real e vir acompanhado de um suco de laranja que você pode tomar à vontade. Engraçado como tem gente que fica à vontade em gastar uma moeda e comer carne de origem duvidosa, seja no Centro de São Paulo ou na Rua Augusta.

Nesse final de ano, sentando no colo de um Papai Noel imaginário, de um Papai do Céu solidário ou de um Cara Lá de Cima simpático, peço que você e toda sua família aprendam a andar do lado direito das escadas-rolantes e vias públicas, que ganhem bexigas maiores para que possam beber cerveja sem entupir a fila do banheiro da balada e que observem essa data sem a convulsão de bondade social provocada pelos piscas-piscas espalhados pela cidade comprados na 25 de Março. Beijo, me mandaumpedaçodoseuperu.





Férias, Eu Te Mereço

12 12 2008

Você já aguentou o Big Brother 8, viu Juvenal Antena morrer e desmorrer, Suzana Vieira casar, separar, casar, separar e virar viúva. Tudo isso, sem feriados, gorduras-trans ou vaselina. É, meu caro, a vida é tudo, mas o ano termina e você merece, mais do que ninguém, descansar!

O problema é que quando nós estamos em férias, outros também estão. Todos os lugares lotam. Todo mundo vai correr no Ibirapuera, foge pro shopping quando chove e liga pra mesma garota fácil na sexta-feira à noite. Com tanta competição na diversão, é provável que você fique na internet, caso o Speedy não caia.

Viajar é um alívio e um transtorno. Para qualquer lugar que você vá poderá encontrar mais paulistas do que em São Paulo. Um em cada três turistas falam português e os outros dois usam relógio no braço direito. Seus pais não pagam mais o acampamento do verão, as baladas ficam ruins, o Natal fica deselegante no calor e o Papai Noel usa regatas. É o fim.

Se o teu ódio pelo ser humano sobe ao quadrado do diabo a quatro, saiba que é comum, que é apenas stress e que ele irá passar lentamente, assim como o seu bronzeado de verão sai quando você bater o cartão pela primeira vez em 2009. O amor pela vida, Jesus e agregados vai voltando junto com a dívida do cheque-especial até você virar devoto, de novo de Santo Expedito.

Se pra você o Bilhete Único é passaporte, te digo que a coisa está feia. No Brasil, a melhor saída é sempre o aeroporto mais próximo e vale até fugir para a casa da avó, aquela velhinha que gosta mais de você do que da sua mãe, seja ela mãe da dita-cuja ou sogra. Nada melhor para justificar uma vida sexual inexistente do que culpar a avó.

Eu, como bom branco, de olhos claros, classe média, católico apostólico romano e heterossexual, vou curtir as minhas férias com refeições macrobióticas em uma comunidade Quaker no interior da Bahia. Porque Flora e Donatela já deu né? Quero sentir o quente abraço dessde Grande Sertão e experimentar a sensação de ser um dos mais gordinhos da cidade, mesmo com meus 55kg de piadas maldosas. Férias, Eu te Mereço!





Crise econômica, my ass

18 11 2008

 

Em tempos de crise, que não tem cão, come churrasco de gato.

Em tempos de crise, que não tem cão come churrasco de gato.

 

Quando a gente vê o pai roubando o cofrinho da filha e a mãe colocando farinha no feijão pra engrossar é que a coisa tá feia. Mesmo com a eleição do Obama pra presidente e do Muricy pra técnico da seleção, não há muita diferença pra quem precisa vender o almoço pra pagar a prestação do desodorante.

Agora dizem que a crise pegou, que tem corretor que ameaça se matar no meio da Bolsa na frente de tudo mundo. Se isso é desespero, eu digo que tá tudo tranquilo. Só vou acreditar mesmo quando tiver camelô se matando na Praça da Sé na véspera do Natal. Cortando os pulsos com faquinha de rocambole Panco e tudo.

Ali, onde passam mais de 1 milhão de pessoas no final de semana, se faltar Papai Noel cantando Jingle Bell com sotaque coreano, o pessoal sai no tapa. Na sede pelo consumo, parcelando a vida no Mastercard da C&A, há quem compre mpês do MP3 até o MP10, que nessas alturas, deve ter até GPS. E depois falam em recessão.

O que enche o saco mesmo é essa coisa de ficarem todos os dias falando que o dólar subiu, que a bolsa caiu e que a Luana Piovani brigou. Já era assim, minha gente, quando o Lula foi eleito e mesmo assim, ou talvez até por causa disso, a gente votou no cara. Então tá tudo bem, tudo se resolve. Se Clinton tinha a Lewinski, o Lula tem a Dilma e cada um tem a estagiária que merece.

Chega de se preocupar em gastar o décimo-terceiro salário. Dinheiro é assim mesmo. A gente gasta e o que sobrar a gente queima. Não deixe o William Bonner te convencer que as coisas tão difíceis e que os juros vão subir junto com o preço do viagra. Como diria Carla Perez, isso é coisa da mídia.

A verdade é que sempre haverá carne moída e pão francês, então ninguém morre de fome. Com o país exportando cana pro etanol, basta plantar uns bambus no quintal e vender pro Paraguai que ninguém percebe. Brasileiro é um povo criativo. Nós vamos sair dessa. Vai ficar tudo bem. Mas não agora, só depois do Carnaval. Até lá, Feliz Natal.