Há três categorias de bebês: os lindos, os engraçadinhos e os saudáveis:
- Os lindos são bonitos, tem olhos claros, traços delicados e indicam uma vida repleta de bom sexo, vida social plena e a tal boa apresentação requirida por algumas vagas de emprego.
- Os engraçadinhos são os bebês com sorriso divertido, que fazem rir por terem pouco cabelo, uma bochechas gordinhas ou sons animados.
– Já os saudáveis, simplesmente são aqueles bebês que a gente espera que cresça com saúde e não se tornem assaltantes, usuários de drogas ou portadores de pochete. Bom, eu era um bebê saudável.
Bom, mesmo tendo 3 anos de diferença da minha irmã, quando ela nasceu, já tinha praticamente o dobro do meu tamanho. Mesmo eu sendo um bebê ruivo, já sardentinho, não era muito simpático. Minha primeira frase completa foi: “Mãe, cerque meu berço com arame farpado, por favor, gu gu dá dá (eu ainda não sabia falar ‘porra, caralho’”.
Ouvia da sala os risos e frases desconexas que as visitas disparavam à minha irmã. Ela era moreninha, tinha olhos verdes e um sorriso encantador. Quando meu pai brincava de aviãozinho com ela pelo apartamento, eu realmente sonhava que ela enroscasse no ventilador de teto.
Eu nunca me esqueço da minha mãe comigo pequeno e minha irmã bebê quando chegou uma velha senhora e falou: “Que bebê lindo! que ela seja muito muito muito feliz!”….e “que graça de menino, que ele tenha muita saúde!”. Depois disso, nunca mais dei um espirro e a minha irmã, bom, ela deu bastante.
Tais pensamentos negativos me tornaram uma pessoa ruim. Sou magro de ruim. Todo dia era dia de maldade comigo e com a minha irmã. Já prendi o dedo dela na porta, já acertei um bastão em sua cabeça “brincando” de beisebol (mero pretexto) e insistia em trancá-la no banheiro com meu poodle assassino.
A maior travessura foi, talvez, pegar um carrinho, daqueles de fricção, que você empurra para trás e ele volta sozinho, e passar em seu cabelo. Os fios prenderam, claro, e minha mãe precisou cortar um tufo enorme com uma tesoura escolar sem ponta. Apesar de tudo isso, minha irmã sobreviveu, hoje me ama e ainda é linda depois das cirurgias plásticas.
Falo tudo isso por que acho que ninguém leva a sério as experiências que nós temos enquanto somos pequenos, bem pequenos. Todo mundo fala da adolescência, das espinhas, da primeira vez que foi mal comido, mas na verdade, eu ainda estou cheio de mágoas de quando me tiraram minha chupeta e me deram as primeiras palmadas. Talvez isso explique muita coisa.
Aquela papinha sem graça, a babá que roubava meu Danoninho e o episódio de Ra-tim-bum que eu perdi nunca poderão ser recuperados pela terapia. Já foi. Da infância, só lembro do pega-pega e do esconde-esconde. Da adolescência, depois que descobri o sexo, só lembro também do pega-pega e esconde-esconde.
Tendo em vista o passado triste que tive e o futuro fracassado que essas experiências me impõem, resolvi apostar em meu sobrinho. Ele é ruivo, lindinho, engraçado e saudável. Serei seu amigo, darei presentes legais quando ele aprender a falar “obrigado” e sairemos juntos para baladas alternativos. Tanta proximidade vai fazer com que eu conheça seus defeitos e, sabendo que ele não é perfeito, posso dormir tranquilo. Até agora, já descobri que ele tem chulé, incontinência urinária e uma fixação inexplicável por peitos.

