Férias, Eu Te Mereço

12 12 2008

Você já aguentou o Big Brother 8, viu Juvenal Antena morrer e desmorrer, Suzana Vieira casar, separar, casar, separar e virar viúva. Tudo isso, sem feriados, gorduras-trans ou vaselina. É, meu caro, a vida é tudo, mas o ano termina e você merece, mais do que ninguém, descansar!

O problema é que quando nós estamos em férias, outros também estão. Todos os lugares lotam. Todo mundo vai correr no Ibirapuera, foge pro shopping quando chove e liga pra mesma garota fácil na sexta-feira à noite. Com tanta competição na diversão, é provável que você fique na internet, caso o Speedy não caia.

Viajar é um alívio e um transtorno. Para qualquer lugar que você vá poderá encontrar mais paulistas do que em São Paulo. Um em cada três turistas falam português e os outros dois usam relógio no braço direito. Seus pais não pagam mais o acampamento do verão, as baladas ficam ruins, o Natal fica deselegante no calor e o Papai Noel usa regatas. É o fim.

Se o teu ódio pelo ser humano sobe ao quadrado do diabo a quatro, saiba que é comum, que é apenas stress e que ele irá passar lentamente, assim como o seu bronzeado de verão sai quando você bater o cartão pela primeira vez em 2009. O amor pela vida, Jesus e agregados vai voltando junto com a dívida do cheque-especial até você virar devoto, de novo de Santo Expedito.

Se pra você o Bilhete Único é passaporte, te digo que a coisa está feia. No Brasil, a melhor saída é sempre o aeroporto mais próximo e vale até fugir para a casa da avó, aquela velhinha que gosta mais de você do que da sua mãe, seja ela mãe da dita-cuja ou sogra. Nada melhor para justificar uma vida sexual inexistente do que culpar a avó.

Eu, como bom branco, de olhos claros, classe média, católico apostólico romano e heterossexual, vou curtir as minhas férias com refeições macrobióticas em uma comunidade Quaker no interior da Bahia. Porque Flora e Donatela já deu né? Quero sentir o quente abraço dessde Grande Sertão e experimentar a sensação de ser um dos mais gordinhos da cidade, mesmo com meus 55kg de piadas maldosas. Férias, Eu te Mereço!





Um conto de quinta

11 12 2008

Correria para pegar o elevador. Umas quatro pessoas, mais você, correm antes que as portas fechem. Um hábito incoerente, o elevador te leva ao terceiro andar, onde fica seu escritório com pessoas mesquinhas, seus colegas.

 

- Nossa, que calor – diz um velho de camisa enxarcada de suor.

 

Todos pensam o mesmo: fedor. Sorrisos amarelos brotam. O elevador para no primeiro andar e o velho sai, junto com outra moça, alguns bons anos mais nova que ele. Você pensa que ela podia ser modelo.

 

- Luara, você pintou o cabelo né? – pergunta uma menina sem nome.

- Luzes. – é a resposta fria de Luara.

 

No segundo andar, a menina sem nome sai. E você, e Luara, respiram fundo, sincronizados. Um olha pro outro, e dão risadas. Um momento de bobeira. Ela lhe diz:

 

- Fazia tempo que eu não te via por aqui.

- Estava de férias… Como eu precisava delas, fui pra praia mesmo.

- Há alguns anos eu não tiro férias. Já não lembro mais de como é.

 

O que você pode responder? Antes de pensar, é o terceiro andar e se despede, sai sorrindo e olha pra ela. É um jogo de espelhos, no mínimo instante você percebe que você é quem não tira férias, você é quem ficou sumido por estar tão doente que não conseguia voltar ao trabalho. E sua tristeza é mascarada, assim como as portas do elevador que se fecham. Luara, já não olha mais e procura algo na bolsa. Você pensa em parar a porta, num ato de desespero sem sentido. Então, tudo volta ao normal.

 

Você caminha pelo corredor e ouve um grande barulho abafado, que ecoa pelas paredes, pelos canos, pelo ar quente.

Fico feliz, por você.

 

por Shin Hatagima





Indie que é indie tira férias na Páscoa

13 11 2008

vacation

Esta chegando a hora de pular as sete ondinhas, fugir dos trombadinhas na Praia Grande e enfrentar o caos aéreo do mosquito da dengue. Férias, pra muita gente, é motivo do comemoracao e descanso. Mas a gente nao. Indie que é indie deixa pra tirar férias em período alternativo.

O mais desesperador é saber que para qualquer lugar que voce va, provavelmente encontrará lá mais paulistanos do que em Sao Paulo. As pessoas fogem da cidade e se encontram no interior, na praia e principalmente em New York e dessa forma a gente nunca realmente deixa de ver aqueles que sempre esbarramos no metro.

Por um milagre da fertilidade, surgem aos montes pessoas em cantos antes vazios. Nao ha mais lugar a sombra. Em todo ponto, um cara sem camisa e alguma menina com um piercing badalando em um umbigo de uma barriga cheia de celulites. A garota de Ipanema, que Deus a tenha, se acabou em Fofura. Sim, o salgadinho.

Com ou sem gordura-trans, o que mais revolta é, naquele calor todo, sentar no quiosque e pedir uma cerveja vira uma epopéia de curta duracao, por mais que isso seja controverso. O diálogo com os nativos é sempre confuso e complexo.

Por isso, nosso conselho: Fuja das férias, seja diferente: vá trabalhar. Te juro que o telefone nao toca, o chefe está fora e o ticket refeicao rende mais. Sem ninguem no metro, voce pode até sentar. Nao vai ser queimado por cigarros bebados quando for ao Outs e a Funhouse vai estar mais vazia que sua casa em ceia de Natal.

A: Por favor, me vê uma Skol.
B: Senhor, acabou a Skol.
A: Me dá uma Brahma então.
B: A Brahma também acabou.
A: Que cerveja você tem?
B: Na verdade, acabou as cervejas, senhor.
A: Hmmm…me dá uma Coca Cola então.
B: A Coca acabou também, senhor.
A: Me dá um guaraná então.
B: Guaraná do que?
A: Como assim guaraná do que?
B: Guaraná de soda, guaraná de uva, guaraná de guaraná…
A: Claro que eu quero guaraná de guaraná né
B: Senhor, guaraná de guaraná acabou.
A: Grrrrr…me dá uma água então.
B: Água de quê, senhor? De coco ou água normal?
B: Grrrrr…

Deixe as férias para a Pascoa e siacabe em chocolate.