Futebol na Escola, Repetentes e Como Fugir de Chutes no Saco

17 08 2009

Era o final de campeonato de futebol na escola. De um lado, a 8ª série, com garotos que se atreviam a demonstrar uma pré-barba e espalhavam boatos de perda de virgindade com a inspetora e a tia da cantina. No meu time, a 7ª série, um ano mais nova, com jogadores que tinha apelidos vindos de Pokemon.

Fui escalado para jogar na linha, no meio de campo. Até então, eu era sempre o goleiro, escolhido logo após o gordinho suado e o garoto chileno do intercâmbio que era manco. Era a minha chance de brilhar. Eu não jogava bem, mas corria rápido e sabia gritar “Ladrão” quando alguém se aproximava para roubar a bola.

Campeonatos esportivos representam uma pequena chance de sucesso social no colégio. É ali onde as garotinhas decidem que tipo de caras elas vão gostar. Até hoje, eu vejo uma certa relação entre asma e homossexualidade, já que os meninos que deixavam de praticar o jogo alegando a doença acabaram desistindo do sexo oposto. Ou o contrário.

Se Deus não me deu o talento de um Ronaldinho Gaúcho, pelo menos, eu tinha a aparência e canelas finas. Meu pai comprou uma bela chuteira em uma promoção no Mercado Livre e eu carregava, em campo, um lanchinho preparado pela minha mãe, com espinafre e patê de atum, caso precisasse de mais energias.

E eu iria precisar. O desafio era enorme. Além de mais velhos, eles tinham o reforço de um garoto repetente e é incrível a diferença do Ensino Fundamental para alguém que deveria estar no Ensino Médio. Eles tinham as pernas peludas e não fazia nem 12 anos que tinha começado a crescer cabelo na minha cabeça.

O juiz apita o início de partida e eu vejo a bola circulando pela lateral oposta. Eu corro, de um lado para o outro, tentando me colocar disponível para receber uma chance de jogada. Nada. A partida segue e eu apenas circulo pela quadra de piso emborrachado. A emoção era tanta que dava pra parar e tomar um picolé enquanto meus colegas driblavam. Eu só me preocupava em me manter limpo e não levar um chute no saco. Quero ter filhos um dia, sabe como é.

Quando uma partida de futebol amadora permanece no zero a zero por muito tempo, é porque os jogadores são muito ruins ou o juiz não foi apresentado à matemática. E era assim que seguia até que o técnico, um professor de educação física frustrado que vivia sujo de Doritos, resolveu me colocar no ataque. E era lá que eu deveria enganar o repetente e tentar marcar um gol a nosso favor.

Eu era baixinho, tinha menos de 1,50 e calçava 41. Eu era maior na horizontal do que na vertical e talvez por isso, Deus olhou para mim com carinho e atenção naquele dia e a bola veio cruzada, do alto. Não havia ângulo. Eu não queria dar uma cabeçada para não desmanchar o meu penteado.

Era preciso inovar, tentar inovar. Ser ousado, Felipe! E eu fui! Ensaiei uma bicicleta, pulei, levantei meu peso do chão , troquei as pernas e fiz uma bicicleta linda, acertando um chutão na bola. Caí no chão, a pancada foi forte e fiquei levemente desacordado. Escutava gritos de gol ao fundo. A torcida vibrando. Marmanjos murmurando e o juiz sendo espancado. Esbocei um sorriso enquanto era carregado para a enfermaria.

Acordo minutos depois. Do meu lado, não estava o time. Eu os queria ali, comigo, ao redor da maca, agradecendo pelo esforço. Seria a recompensa e o reconhecimento. Devem estar comemorando, pensei. Até que meu pai me acorda, delicadamente e me dá um tapa no rosto. Em seguida, a notícia: Eu realmente fiz um gol de bicicleta. Um golaço. Contra. Lição para a vida: nunca tente dar bicicletas quando você estiver de costas para onde deve fazer gol. Vida de merda.





Street Fighter: O Duelo Nerd ou Sonic vs. Mario: School Edition

17 06 2009

6a00d834515e6669e200e54f6d7cc28833-800wi

Brigas de garotos de escolas particulares costumam ser monótonas, com pré-adolescentes envolvidos em desafios de quem rasga mais dinheiro, quem tem mais contatos no smartphone e quantas ex-mulheres o pai tem. Em todo caso, brigas de garotos nerds de escolas particulares costumam atrair atenção pelo grau de bizarrice.

No meu caso, era um conflito premeditado. Eu era Nintendo. Ele era Sony. Eu era Matemática. Ele era Física. O número dele antes vinha antes do meu na chamada mas eu me posicionava na frente dele na fila, por ser mais baixinho. Não era comum encontrar os dois duelando em problemas de matemática ou em quizzes baseados na tabela periódica. Alguns diziam que era amor. Pra mim, era apenas falta de sexo e excesso de neurônios desocupados.

O conflito foi ficando sério. Mandei uma reclamação pra mãe dele em seu caderno e, em troca, recebi uma ameaça via SMS. Os demais garotos de escola particular, entediados com a falta de emoção de um colégio que usa uniforme marrom, resolveram incentivar. Os mais velhos ficaram ao meu lado. Os mais novos, ao lado dele. Chamavam de Street Fighter: Sonic Vs. Mario – Nerd Edition.

Pois bem, a briga foi marcada. Seria no laboratório de química, no subsolo, após a aula de educação física, no período da tarde. As instruções foram bem confusas para que ninguém se lembrasse muito bem do cenário da luta, já que garotos de escolas particulares costumavam ter memória curta para lugares e fatos.

Chegou o dia e eu resolvi me arrumar bem. Queria derrotar meu oponente não apenas atirando colas Pritt, mas também pela elegância. E, enquanto eu passava gel no cabelo, começou a me bater um medo. Lembrei daqueles vídeos que passavam no Cidade Alerta com brigas de garotos de escolas públicas que se cortavam com estilete. Meu nerd rival poderia me atacar com um compasso! Como uma escola podia permitir a entrada de algo tão perigoso? Era absurdo! Eu não podia correr esse risco. Amarelei. Não fui. Faltei!

Agora eu sabia que no dia seguinte eu seria humilhado publicamente. Eu tinha certeza que todos me olhariam com desprezo e que o outro, o Mario, seria eleito o novo nerd master e que agora eu teria que andar pela escola com o grupo dos reprovados em Educação Artística. Já planejei a transferência de escola, a crise de sindrome do pânico que seria usada para mobilizar meus pais e redigi uma breve carta de despedida aos meus colegas de escola. Mas, por um golde do destino, isso não foi preciso!

O outro nerd também faltou! Ficou com medo de mim, olha essa! Por sorte, nos encontramos em frente ao colégio para comer a nossa coxinha desidratada matinal e combinamos uma saída fenomenal. Era simples: ele levaria um soco meu e eu levaria um soco dele. Nada sério, só o suficiente para causar um bom olho roxo e dizer que ouve uma briga propriamente dita e sairíamos como Ken e Ryu, que lutavam todos os dias, mas que mantinham uma amizade apesar disso.

Até hoje eu me lembro de seus olhos fechados, sua cara de medo, enquanto eu preparava o meu soco certeiro em seu olho direito. Fui tomado por uma dose de adrenalina incrível. Eu estava realmente curtindo isso. Eu tinha motivos para bater nele e, como ele estava permitindo isso, minha consciência ficava mais leve. Era perfeito. Dei o soco. O nerd deu dois pulos para trás e caiu no chão. Eu olhei, ri e estendi os braços para o alto, como Rocky após uma vitória. Entrei pela escola gritando que avia derrotado meu oponente e fui aclamado! E foi assim que eu fui filho-da-puta pela primeira vez na vida.





Como Perder a Virgindade e a Vida Social Escolar

30 03 2009

*por Saulo Henrique Oliveira, vencedor da promoção do PinkEgo. (Sim, eu sei, é grande. Mas não tenha medo. Vale a pena)

jlvn794l

Nos tempos de colégio, gostava eu de uma garota que convenhamos não era lá bem vista pelo meu grupo social. Digamos que os problemas delas variavam desde cunho psicológico até problemas básicos de higiene. Logo, passei a fazer o que qualquer macho de respeito faria numa situação dessas: na frente dos camaradas, eu metia lenha na coitada e falava mal dela até não poder mais. Apesar de secretamente sentir uma leve paixão pela moça, na frente das câmeras eu era seu inimigo número 1: inventava apelidos, fazia musiquinhas, esboçava caricaturas maldosas, jogava bolinha de papel nela entre outras atividades altamente construtivas. Ou seja, me portava como o verdadeiro cavalheiro que há dentro de todos nós!
Para entender o porte da moçoila, façamos uma breve descrição da mesma. Apresentava a rapariga altura mediana, cabelo ensebado, picanhinha na região do abdômen,  pochete natural, um leve bigode e algum tipo de distúrbio glandular. Julgava eu que a moça nutria péssimos hábitos de higiene pessoal, dado que exalava um mal-cheiro característico. Provavelmente, a menina não fazia uso de utensílios de higiene básica como shampoo, gilete e desodorante. Contudo, eu sempre me enganei com a história do problema glandular e uma hipótese de ascendência espanhola para justificar os problemas com depilação enfrentados pela moça.
Convenhamos que a moça também não era lá muito legal, o que de fato não importa, porque caras como eu sempre pensam com a cabeça de baixo. Por isso, eu nunca encontrei uma explicação plausível para a atração fatal que eu sentia pela garota. Eu não conseguia achar UMA qualidade dela que me apetecesse. Isso gerou um ódio para comigo mesmo, o que provavelmente desencadeou a malediscência que eu proferi contra ela.
O contraste dentro de mim mesmo era evidente e não tardou para que o destino me desse uma bofetada. Lá estava eu em oportuno churrasco de galera, na presença de todos meus amigos, quando a menina surge das sombras, mal-vestida como de costume. Devo dizer que não me lembro de muita coisa depois do quinto copo de smirnoff. Dentre os flashs que me vem a mente, destaco uma dança sem camiseta sobre uma mesa, uma menina que empurrei de roupa na piscina e alguns segundos em que eu regurgitava no banheiro.
Chega a segunda-feira e lá está todo mundo rindo pelas minhas costas. Foi antes mesmo do almoço que as piadinhas começaram: “Aê, são jooorge, beleza?” ou “Fala aê, mata-dragão!!!”. Inclusive, passaram a me chamar de “O homem DOVE, porque o sol brilha pra todas!”. Pensei, pensei e pensei e cheguei a conclusão clara de que a única mulher feia que eu poderia ter beijado no auge da bebedeira era a dita cuja. As outras meninas do churrasco não eram feias o bastante para me render um “Homem DOVE” (me renderiam no máximo um “caridoso”).
Conversei com amigo de confiança, que na verdade se mijou de rir com a história toda, mas me confirmou a verdade inevitável. Para dar um toque mais especial, nossa querida amiga ainda estava na ilusão de que havíamos engajado em um relacionamento. Não nego que parte de mim ficou feliz com todo o ocorrido, e provavelmente foi essa a parte que a vodka trouxe à tona. Estranho o poder do álcool sobre as pessoas. Mas a vergonha que eu sentia, difamado por todos meus amigos e colegas, era demais para aguentar. Precisava dar um fim nessa história.
Decidido, resolvi procurá-la no intervalo para dar um basta! Pretendia ser cruel e impiedoso. Não iria ligar para lágrimas ou palavrões, ia terminar esse erro, botar toda a culpa na bebida e torcer para que em um ano ou dois essa confusão toda caísse no esquecimento. Conscientizei-me de que eu era uma rocha sem sentimentos, focado num só objetivo. Ao vê-la, falei que precisava falar algo importante com tom sério e chamei-a para um canto.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, a menina foi logo me interrompendo. E a interrupção veio com um caráter de surpresa que me derrubou. A rapariga fez uma proposta irrecusável! Os pais dela coincidentemente não estariam em casa naquela tarde fatídica e a moça disse que queria que eu fosse na casa dela aproveitar desse fato.
Poucas pessoas sabem o que é ser virgem no colégio. Ser virgem no colégio faz “O último dos Moicanos” parecer desenho de criança. Ser virgem no colégio é tipo usar roupa em praia de nudismo. A realidade é muito cruel para um virgem no colégio. AH! As piadas! A HU-MI-LHA-ÇÃO! Essas coisas marcam sua personalidade igual aqueles ferros ferventes de marcar boi. Por isso, meus olhos brilharam ao cogitar a singela hipótese de perder a virgindade. Comecei a vibrar quando a garota inferiu com todas as letras que naquela tarde faríamos sexo!
O contraste interior novamente surgiu. Pensei na vergonha que seria se todos soubessem que eu não só beijei a moça como levei ela para cama. Mas no fim, vergonha por vergonha dava quase na mesma. E claro que nessas horas a segunda cabeça SEMPRE fala mais forte. Sem hesitar, eu aceitei o convite.
Bateu o sinal indicando o término das aulas e eu estava me contendo de agitação! “Hoje é o dia em que eu vou perder a virgindade, Yéeeees” , pensava eu para mim mesmo. Encontrei com minha peguete que informou que iríamos andando até sua casa que ficava nas proximidades. Até aqui tudo indo ótimo. Perguntei se havia alguma farmácia no caminho e ela replicou com: “Relaxa bobinho, eu tenho preservativo lá em casa!”.
Quando ela falou isso, gelei até a alma. Difícil encontar moça assim, descontraída. Comecei a desconfiar que alguma coisa estranha estava acontecendo. Tomei toda a coragem do mundo e conversei sobre o assunto, confirmando com a maior certeza mais certa que tipo, definitivamente certeza faríamos sexo naquela tarde, sem sombra de dúvida. Perguntei também se a menina era virgem. Coisa de homem. Ser homem, no sexo, é quase como ser um desbravador. Ser o segundo a descobrir um continente não tem tanta graça. Eu queria mesmo era ser o Cristovão Colombo! Queria fazer a grande estréia! Para o meu conforto, ela se afirmou virgem.
Assim que entramos no quarteirão onde ela morava, a moça me solta um: “Vamos logo que eu quero que você conheça os meus pais!”. Pê-Pê-Péeeeeeerrraaaaí, PAIS? Que história é essa? Falei que ela havia me dito que eles não estariam em casa naquela tarde. Ela confirmou que isso era verdade, mas disse também que eles sempre almoçavam em casa. Nesse momento, eu senti uma vontade de sair correndo o mais rápido que eu conseguia. Tipo fugir a toda velocidade desenfreadamente para o lugar mais longe imaginável. Mas naquele ponto não tinha como voltar atrás. Meu pênis nunca entenderia a decepção. Ele não aguentaria a frustração em cima de toda a expectativa que ele havia construído. Mais uma vez, ele falou mais alto e eu acabei me sujeitando a conhecer os pais da garota.
Logo que entrei na casa dela, deparei-me com um dos ambientes mais imundos que eu já vi em toda minha vida. Era como se por décadas aquela casa nunca tivesse sentido sequer um gostinho de veja. Como se a gordura nos azulejos fosse tamanha que desse até para fazer sabonete. Pilhas de lixo jaziam espalhadas por todas as partes. Nas paredes, uma camada grossa e visível de pó. Nos móveis e estantes, pilhas de cacarecos e lixo empoeirados. Como se não bastasse, a casa emanava um odor de urina de cachorro, e alguns dejetos do animal eram visíveis ao longo do corredor.
O resto da casa seguia o mesmo padrão. Caminhamos até a cozinha, onde a garota me apresentou como o “namorado” dela para o pai. Sentei à mesa, sem saber o que pensar. Preso naquele chiqueiro, sujeito aos olhares de reprovação da mãe e de mãos dadas com uma peguete desagradável, encontrei-me imerso em um momento de silêncio que precedia a tormenta. Lembro de ter me perguntado: “Que diabos estou fazendo aqui?” e de ter dito para o meu chapa debaixo: “Tá vendo aonde você nos meteu?”. E a tormenta logo se fez presente, quando na próxima hora sofri intenso interrogatório do pai da moça.
Após um desgaste considerável mentindo sobre minhas intenções com a filha dele, justificando o meu piercing na orelha e convencendo-o de que eu não era um degenerado, o almoço terminou. Digamos que fui obrigado até a fazer uma projeção do meu futuro, ilustrando os meus planos profissionais para os próximos 10 anos. Passados alguns minutos, eles vieram se despedir e fui advertido pelo pai da menina a não tentar nada enquanto eles estivessem fora.
Ouvi o portão se fechando e o carro indo embora. O nervoso apertou, a barriga gelou e o coração bateu ainda mais forte, especialmente quando a moça me olhou fixamente. Era agora! Eu ia perder a virgindade! FINALMENTE! Ela me tomou pela mão e guiou o caminho até seu quarto. Chegando lá, empurrou uma pilha de roupas sujas de cima da cama para o chão. As roupas aterrissaram em alguns papéis amassados e sujeira de apontador. Eu até pensei ter visto um potinho vazio de iogurte, mas prefiro acreditar que era só impressão.
Eu não sei explicar porquê, mas em um momento de extrema ansiedade, eu não pensei. Corri e me joguei na cama com um salto pseudo-olímpico. Foi um momento épico. Durante o ar, ouvi um estalo forte, como se algo tivesse se rompido sobre mim. Em seguida ouvi um latido doloroso e um grito de desespero. Percebi que estava num nível bem mais baixo que a cama. Segundos depois, dei-me conta do que havia acontecido. Ao me jogar sobre a cama, o estrado cedeu, caindo no chão. Agora eu nunca vou entender POR QUE RAIOS O MALDITO CACHORRO ESTAVA EMBAIXO DA CAMA! Só sei que quando ele emergiu dos escombros, mancava bastante e gemia de dor a cada passo.
Acho que por ser uma menina tão excluída, a minha peguete acabou se transformando nessas pessoas que gosta mais do que cachorro do que de gente. Afinal, o fiel companheiro era o único ser vivo que estava sempre lá quando ela precisava. O nível dessa paixão era tamanho que ela comemorava o aniversário do cão com festinha e bolo em formato de osso. Mal posso descrever o desespero que surgiu na moça ao ver o que eu havia feito com o pobre cãozinho.
Se pararmos para pensar, eu contribui em grande parte para a exclusão social da garota, devido a imensa propaganda negativa que eu teci pelas costas dela. Logo, fui quem contribuiu para que ela comprasse o cachorro em e também para que ela o amasse doentiamente. Marx ficaria orgulhoso que seu materialismo histórico funciona até mesmo para relacionamentos pessoais. Fui eu quem criou os meios para minha própria destruição.
Segundos depois do desespero, a menina foi invadida por um ódio descomunal. Eu assisti a transformação que nela se seguiu deveras perplexo. Seu rosto ficou vermelho, suas veias saltadas, lágrimas escorriam de seus olhos e seus punhos se fecharam. Com todas as forças de seus plenos pulmões, a moça urrou: “SOME DAQUI SEU VIADO QUE EU NUNCA MAIS QUERO VER VOCÊ NA MINHA FRENTE!”.
E eu corri. Corri como diabo fugindo da cruz. Corri como queniano ganhando a são silvestre. Corri como Forrest Gump. Só fui parar quando estava na porta de casa. No dia seguinte, a garota atraiu a atenção de todas as fofoqueiras de plantão quando apareceu na aula com óculos escuro. Ela provocou ainda mais curiosidade por abaixar periodicamente a cabeça para chorar. As fofoqueiras logo quiseram saber do mais novo babado. Se apresentaram falsas como de costume, perguntando o que havia acontecido, como as boas amigas que só queriam ajudar.  Enquanto minha ex-peguete contava toda a história, eu lidava com os olhares de reprovação proferido pelas abutres da fofoca enquanto “mostravam seu apoio”.
E a fofoca correu. Correu mais que diabo fugindo de forrest gump com lambreta queniana. Todo mundo, tipo TODO mundo ficou sabendo. Até o pedagogo do colégio veio falar comigo. Esse foi com certeza o momento mais vergonhoso, ridículo e FAIL da minha vida. Tenho certeza, de que até hoje meus amigos e qualquer pessoa sente vergonha alheia pela minha história. Ou vai dizer que você não está sentindo vergonha alheia também?





Como Crescer e Virar um Blogueiro sem ter Seu Dedo Decepado

23 03 2009

ed4

O processo de alfabetização é difícil. Quando criança, meus dedos eram absurdamente enormes, o que dificultava fazer xixi e fazer perguntas em sala de aula. Eu morria de medo de ter meu indicador decepado pelo ventilador de teto. Esse pavor fez com que eu usasse mais os meus instintos e apelidasse meus objetos escolares. Meu apontador era gay, o lápis era bicurious e o estojo olhava para os dois com uma cara de reprovação. Minha mesa era uma orgia que podia ser comprada em qualquer papelaria.

Até hoje sou aterrorizado por uma uma tal de Laila. Ela era ruiva, sardenta e vivia me fazendo perguntas que eu não sabia responder. Era a personagem da cartilha da minha pré-escola. Foi a primeira garota que eu odiei, muito antes de amores platônicos falecidos e atendentes de telemarketing. Laila me causava problemas matemáticos. Uma vez, ela me perguntou quantas bananas ela teria se tivesse comprado 37 e comido 21. Mandei que ela fizesse outro uso e levei minha primeira suspensão, escrita em papel-vegetal e canetinha colorida. Diretora fofa.

Aos poucos, fui pegando amor pelas palavras. Escrevi algumas cartas de amor, não-respondidas, mas serviram para que eu praticasse bem a separação de sílabas antes da separação de corpos. Com essas correspondências, também aprendi que convidar alguém para transar contigo da forma mais honesta e sincera comigo não é socialmente aceitável. Ainda mais quando voê tem menos de 12 e ela, mais de 30. Mesmo encalhadas, as tias da escola tinham um sorrisinho sádico ao rejeitarem as minhas investidas.

Depois de conseguir redigir, é preciso adquirir o gosto pela leitura. Saborear o gosto gramático das palavras fazendo sentido em sua cabeça. Como eu não tinha amigos, os livros eram a minha companhia. Passei a infância com Jack Kerouac e Woody Allen. Quando a diversão em palavras se acabava, eu os atirava da janela do meu quarto. Cheguei até a arremessar a coleção Harry Potter da minha janela e matei alguns pombos com O Senhor dos Anéis, mas uma hora o acervo termina e a Revista Veja não serve nem pra espantar cachorros-emos.

Depois de mais velho, percebi que a relação entre estudo e ter dinheiro é pura balela. Minhas amigas de infância que passavam as aulas rebolando com o bambolê ganham muito mais do que eu. Enquanto eu lia Freud, elas liberavam a libido e eram felizes. Fui descobrir só depois de velho. O máximo de ação que tenho na cama é quando troco os lençóis.

Com o tempo, entrei para a faculdade de jornalismo e aprendi que erros gramaticais são aceitáveis quando você tem uma boa história e um bom revisor. Aos poucos, um S, dois S e C cedilha se tornaram a mesma coisa para mim numa lógica gramatical com a profundidade de um documentário do Cartoon Netwoork.

Como em jornalismo, escrever é cortar palavras, passei a ser mais sucinto. Em casa, comecei a falar em sílabas. Minha mãe pensou que eu estivesse regredindo à idade do gu-gu da-dá e me deu um Rivotril. No alto do barato do remédio, implantei um dadaísmo ortográfico e abri um blog.

Para postar, era uma fórmula simples e mal-acabada: uma idéia semi-engraçada, frases curtas, piadas de nível colegial e auto-depreciação. Vergonha alheia é o melhor sentimento, localizado logo perto da compaixão, da dó e da pena, sem deixar de arrancar algumas risadinhas entre as várias janelas do Firefoxz abertas simultaneamente.

Até que deu certo. Quando erro a grafia, boto a culpa no teclado, na ABNT e no excesso de glicose. Quando recebo comentários em algum post, imprimo e coloco na parede do meu quarto, cheio de pura honra e glória. Minha irmã corta relações comigo e, de repente, meu almoço preparado por ela fica com um gosto estranho. Meus pais, bom, eles começam a pensar que substâncias ilicitas utilizadas durante a adolescencia e a gravidez realmente causam danos à sua prole.

Não se esqueça de participar da nossa “Promoção: Essa História daria um filme!”





Sobre Como Fugir de Brigas, Tempo de Escola e Nostalgia

12 01 2009

 

Prefiro um bom bully a um chefe

Prefiro um bom bully a um chefe

 

Em tempos de escola, as coisas sao simples. As professoras trocam de sala e voce tem a sua carteira fixa (e nela nao há dinheiro). Espalha as canetas pela mesa e rumores maldosos sobre as maes dos colegas de sala. Os inimigos sao claros: eles torcem para outro time, moram em outro bairro ou simplesmente tem um vicio inexplicavel em roubar o seu lanche.

Pra quem estudou em escola estadual por um tempo, é legal lembrar daqueles uniformes, com listras brancas e agasalho feito de malha vagabunda. Custava certa de 50 reais. Hoje, pagamos mais de 150 reais por um igualzinho que, em vez de dizer o nome da escola, estampa a marca Adidas.

A vida de um jovem estudante é marcada por regras: a fila deve ser feita do menor para o mais alto, professoras nao sao tias e voce deve pedir autorizacao para ir ao banheiro. Se demorar para voltar para a sala, podem pensar que voce estava com dor de barriga, brincando com seu proprio equipamento ou cabulando aula. Todos passíveis de punicao, moral, divina ou palmatória.

Aprendi a minha tecnica de ser um bom amigo (ao meu modo) na escola. Apesar de ter aulas de Alfabetizacao Emocional, a necessidade de fazer amizade com grupos de pessoas que me defendessem de valentoes foi quem realmente me ensinou a agir.

Achar assuntos em comum, aceitar dividir o lanche pra nao perde-lo para um garoto maior e perdoar dividas de balas cedidas evoluiram para acenar a cabeca quando as pessoas falam, fazer olhar de compreensao e deixar os bracos semi-prontos para um abraco. Se hoje nao ha mais bullies, é mais cruel ficar em casa e ver o celular nao tocar.

Tudo isso foi muito antes da “inspetora” virar a polícia cacando seus amigos e suas substancias ilicitas, do nerd virar indie, do rouba-lanche levar teu celular e do famoso “te pego na saída” virar “na sua casa, ou na minha?”.

Se antes, habilidade era saber colocar a bola por entre as pernas dos colegas nas partidas de futebol no recreio, hoje há quem elogie aqueles que falam em braile, pensam em shuffle e fazem uso de dois acessorios importantes para o prazer alheio: a orelha esquerda e a direita. 

PS: Depois de um periodo de semi-férias, o PinkEgo voltou a ter posts diários, decentes, com conteudo pra toda a família acima de 18 anos e com menos de 30. E ah, depois da reforma ortografica, todo tipo de acentuacao virou desnecessaria pra gente. Divirta-se decodificando =)