Uma Ofensa, Tarso Cadore e a Cabeleireira dos Infernos

21 08 2009
Uma Ofensa Disfarçada de Bilhete

Uma Ofensa Disfarçada de Bilhete. Die, Diva, Die.

Tem dia que a gente acorda, chuta o cachorro e sente que só uma overdose de Rivotril pode fazer o trabalho ser mais passável. Mesmo assim, é preciso tomar banho, escovar os dentes, pentear o cabelo e todas aquelas outras coisas que não são necessárias para se tornar o campeão do reality show A Fazenda.

E é fato, quanto mais você tem consciência sobre o seu estado, mais você se preocupará com ele. Foi assim comigo. Saí de casa correndo, atrasado e mal sobrou tempo para me arrumar. Quando isso acontece, ando pelas ruas meio Tarso Cadore, achando que a vizinhança está reparando na minha barba falhada ou em meus cabelos bagunçados.

Como sempre, sentei na lotação e fui em meu estado de coma induzido para o trabalho. Em breves momentos de lucidez, observava uma moça balzaquiana, gordinha, cabelo comprido e escuro, com um sorriso no rosto em minha direção. Mesmo com tanto sono e tão irritado, era gostoso imaginar que ela queria meu corpo para playground, talvez para tirar a virgindade de quase 20 anos sem sexo pela qual ela passava.

Chego ao ponto final e passo pela fulana. Ela me estende um papel. Eu, com meus fones de ouvido, acho que está pedindo indicação de lugar e falo que não conheço muito por ali. Odeio dar indicações. tenho cara de GPS? Ela diz: “guarda e me liga”. Eu olho e penso: ‘Ufa, pelo menos, num dia cinzento e chato como hoje, uma mulher feia quer dar pra mim’.

Mas não, meus amigos. Era simplesmente a maior ofensa que eu já recebi na minha vida! Eu leio o papel e está escrito: Diva – 2961-65XX – PQ. São Lucas Cabelos. A filha da puta dessa pretensiosa dessa cabeleireira de lotação balzaquiana gorda do caralho tava rindo porque estava achando meu cabelo mal cortado e quis resolver meu problema.

Eu sou de paz. Sou um cara humilde.Eu não me ofenderia se ela me achasse com cara de drogado e me entregasse um cartão de “vá à Igreja” de Testemunhas de Jeová. Ou ainda, se me indicasse algum serviço de clínica psiquiatrica gratuita. Ela poderia ainda me dar um folheto de: “Acabe com a sua calvície já”. Mas não, ela, uma especialista em aparar cabelo de careca, de senhora que faz channel, que pode até saber fazer corte juruna, resolveu “salvar” o meu dia e me indicar um corte de cabelo. Eu mereço?

Por isso que eu te digo, minha cara senhora Diva, vá aparar cabelos de axilas no inferno. Volte para a caverna que te cuspiu. Não, eu não quero receber SPAM na lotação. Meu cabelo e eu estamos em paz, ou pelo menos, em convivência pacífica. Volte para o mar, oferenda. Volte para o pão, carne-louca. Vá ser diva dos cabelos do Parque São Lucas e me deixe dormir em paz. Grato, Felipe.





Quanto Vale o seu Silêncio?

18 03 2009

por F. T. P.

Tarde de sexta-feira, fim de férias. Esses últimos dias parecem passar tão rápido que são perfeitos para não se fazer nada. Tentar resolver tudo em um dia só apenas torna a sensação de perda mais forte. Pegou a bicicleta para dar uma volta, lembrando que a ganhou de seu pai, num aniversário qualquer há muitos anos. Talvez, nem tantos anos assim, mas parecia que por um longo tempo que não ganhava nada novo. Aquela bicicleta poderia ter sido o último presente que recebeu, mas ele não se recordaria. O apego ao que tem é muito menor do que a gana pelo que não possui. Com um misto de saudade e senso de obrigação com sua consciência, foi visitar a casa do pai, como surpresa. Imaginou a sensação do velho de ver o filho ali, disposto a passar a tarde com ele. Por outro lado, viu a possibilidade de ele não estar ali. Nesse caso, poderia subir, assistir TV e acender um baseado.

O caminho era curto, os pensamentos soltos, em poucas pedaladas, estava ali, em frente ao prédio. Não lembrava o número do apartamento. Sentiu vergonha. Como poderia não saber onde seu pai morava? Ligou para a irmã que afirmou: apartamento 25. Tocou. Sem resposta. Tocou novamente. Uma voz de mulher atendeu. Um susto. Ficou mudo, paralisado. “Alô, alô, quem ta aí?”, ela disse. Ele pegou a bicicleta e deu meia-volta, sem responder. Sempre soube que seu pai poderia estar com outra pessoa, mas não há nada como ouvir a voz que por tanto tempo imaginou. Era a voz da outra. Ela não era um demônio, um monstro ou algum tipo de vilã de desenho animado. Era alguém que atendia ao interfone, falando alô como qualquer um. Como sua mãe faria. Desde o começo, ele se recusou a conhecê-la, por orgulho e por preservação. Não é um defensor da moral e dos bons costumes, mas se negava a aceitar como aquilo havia começado. Um caso que tinha que terminar, e ponto. Não sabia como lidar em ver seu pai com outra mulher, fazendo planos, trocando risos e olhares, coisa que ele não via há tanto tempo em sua própria casa. Sentiu pena do pai, que não via sua nova vida aceita pelos filhos. Pena de sua mãe, que ainda tinha esperança que os dois pudessem voltar, para tentar, mais uma vez, ser o que nunca foram. Pena de si mesmo, por ter que aceitar que não havia como negar. Algo mudou, se não tudo. Quase tudo. Aquela bicicleta não mudou. Por mais que houvesse uma ferrugem ou outra que insistisse em corroer a estrutura, ela permanecia em pé, funcional, segura. Foi um presente de aniversário, há muitos anos. Mas ainda era um presente, por todos os aniversários. Ele se lembrava, sim, de quando ganhou a bicicleta. Foi aos 12 anos, era uma noite de calor de julho, com toda a família em sua casa. A camiseta que vestia era vermelha, sua primeira calça jeans e all-star azul, desamarrado. Ele ia tropeçar, sua mãe disse. Não tropeçou. O cheiro de bolo de chocolate, de vela queimada, de bala de coco, de crianças alegres. Ah, ele lembrava, sim. Só fingia não lembrar para tornar mais fácil suportar a dor de saber que aquilo tudo não iria voltar. Era melhor voltar para casa. Podia chegar ali e contar para sua mãe sobre o que tinha visto. Não há nada como a verdade para nos fazer acordar. Ela iria ouvir por alguns minutos, chorar por algumas horas e se entristecer por uma vida toda que não volta mais. Não parecia melhor contar. Calculou o preço da honestidade e viu que o resultado era negativo. O silêncio paga a prazo, a verdade é à vista. Quando se vê, sai mais caro ainda. Melhor, o silêncio, por hoje. Era o preço da bicicleta. Era o preço do sossego. Quanto vale o teu silêncio?





Breast pockets N-E-V-E-R-M-O-R-E!

19 01 2009

Por Paulo Delgado

Bom, eis o motivo da meu humor deficiente: fucking breast pockets! Sim… Aqueles bolsos amigos e tão oportunos para quando se precisa de uma caneta, um lenço, um qualquer-coisa-que-caiba-ali! Decidi, pro meu próprio bem, abolir todos eles da minha vestimenta. Ou melhor, do meu comportamento ao usar camisas que tenham esses malditos bolsos na altura peito.

Quinta-feira, dia 15, eu tinha um aniversário para ir. Aliás, em um lugar bem gostoso e com pessoas queridas. Mas, como estou sem carro e sem dinheiro (possuía míseros R$ 2,50 no bolso da mochila), tive que ir embora antes da meia-noite a fim de contar com o transporte público. Ótimo: tirei o Bilhete Único da mochila e passei na catraca do metrô para então, nesse momento, por força do hábito e da comodidade, abrigar o cartão no bolso-do-peito da camisa.

evilbreastpocketsBolsos super oportunos fromhell!

Desço na estação Vila Madalena e já me preparo para correr para o ponto de ônibus, afinal já era mais de meia-noite e sabe Deus quantos ônibus ainda iriam passar. Na escada da saída do metrô, sinto meu cartão no bolso da camisa: ele estava lá. Na metade do último quarteirão até o ponto, avisto o ônibus passando e o farol abrindo – preciso dizer que corri desvairadamente?

Entrando no ônibus me dou conta de que talvez estivesse sem a chave de casa: quem iria abrir a porta pra mim? Não tinha ninguém em casa! Mas nem tive tempo de pensar nisso, pois comecei a enfiar as mãos loucamente em todos os bolsos da minha roupa – pois é, o cartão não estava mais no bolso da camisa.

Entrei em pânico. Mas pensei rápido: como não sei se vou entrar, vou descer aqui, voltar, procurar meu cartão e ligar pro meu irmão, que devia estar de carro em algum lugar ali perto.

Gastei meus penúltimos centavos no pagamento de um ponto de ônibus, que no furor do meu estresse virou dois. Andei 4 quarteirões de ônibus para voltar correndo até o ponto de partida e procurar por um maldito cartão azul, que estava numa maldita capinha amarelo-grifa-texto (cor que eu escolhi, diga-se de passagem, para que eu não perdesse o cartão tão facilmente… quanta ironia)! Isso ignorando o fato de que era quase 00h30 e peve, singelo, estava a solta, desvairado, olhando a calçada.

Minha avó me liga pra saber onde eu estou: tranquilizo-a — “Estou com meu irmão, vó. Volto com ele.”

Não. O cartão não foi encontrado. Incrível como à meia-noite, quando não tinha viv’alma naquele ponto, um cartãozinho some. Será que foi o vento que levou? Será? M-E-S-M-O?

Fiquei tão transtornado que nem parei pra pensar que podia ter caído no ônibus na hora que eu ESCALEI aqueles degraus. Ou na hora que eu saí pelas escadas do metrô. Ou sei lá… Só sei que liguei pro meu irmão, interrompi o show dele, camelei por uns quarteirões, encontrei-o, curti o resto do show e finalmente retornei são e salvo ao conforto do lar.

Nem preciso dizer a moral da história, né?
NUNCA MAIS uso breast pockets. E-V-E-R!





Um conto de quinta

11 12 2008

Correria para pegar o elevador. Umas quatro pessoas, mais você, correm antes que as portas fechem. Um hábito incoerente, o elevador te leva ao terceiro andar, onde fica seu escritório com pessoas mesquinhas, seus colegas.

 

- Nossa, que calor – diz um velho de camisa enxarcada de suor.

 

Todos pensam o mesmo: fedor. Sorrisos amarelos brotam. O elevador para no primeiro andar e o velho sai, junto com outra moça, alguns bons anos mais nova que ele. Você pensa que ela podia ser modelo.

 

- Luara, você pintou o cabelo né? – pergunta uma menina sem nome.

- Luzes. – é a resposta fria de Luara.

 

No segundo andar, a menina sem nome sai. E você, e Luara, respiram fundo, sincronizados. Um olha pro outro, e dão risadas. Um momento de bobeira. Ela lhe diz:

 

- Fazia tempo que eu não te via por aqui.

- Estava de férias… Como eu precisava delas, fui pra praia mesmo.

- Há alguns anos eu não tiro férias. Já não lembro mais de como é.

 

O que você pode responder? Antes de pensar, é o terceiro andar e se despede, sai sorrindo e olha pra ela. É um jogo de espelhos, no mínimo instante você percebe que você é quem não tira férias, você é quem ficou sumido por estar tão doente que não conseguia voltar ao trabalho. E sua tristeza é mascarada, assim como as portas do elevador que se fecham. Luara, já não olha mais e procura algo na bolsa. Você pensa em parar a porta, num ato de desespero sem sentido. Então, tudo volta ao normal.

 

Você caminha pelo corredor e ouve um grande barulho abafado, que ecoa pelas paredes, pelos canos, pelo ar quente.

Fico feliz, por você.

 

por Shin Hatagima