Poucas pessoas tem a alegria de receber uma correspondência em casa – com seu nome completo – que não seja conta a pagar ou aviso de inclusão no SPC. Para minha surpresa, recebi uma exceção a essa regra esses dias. Era um pequeno pedaço de papel, com meu nome completo escrito à mão. Seria uma carta de amor? Pensei. Provavelmente não, já que não tenho encontros românticos com alfabetizados há algum tempo.
Simplesmente não chega nada endereçado à mim no apartamento a não ser remessas internacionais de albuns indies que não vou contar quais são. Aliás, Felipe T. P. não consta nem na mensagem da secretária eletrônica, gravada por minha mãe. Além disso, já cheguei algumas vezes e não fui reconhecido por minha própria irmã, que estava ligadona em Fandangos sabor Queijo com seu filho imerso dentro do pacote.
Mas mesmo assim, abri o papel e lá estava a surpresa: era uma intimação! Eu deveria comparecer à delegacia onde fiz o reconhecimento dos ladrões que me roubaram o ipod e o smartphone, lembram? (leiam aqui, foi o melhor post ever) Aparentemente, a polícia queria novas informações sobre o caso e a minha presença era uma imposição. Tinha até hora marcada e tudo. Era um armaggedon anunciado e eu não tinha nem feito a sobrancelha.
Nessas horas, a gente entra em pânico. Comecei a me perguntar se tinha feito corretamente o reconhecimento dos meliantes. Talvez eu, tão afoito em ajudar o sistema e vingar o roubo, tenha me confundido e mandado para atrás das grades jovens inocentes que não tinham um bom alibi. Mas, se eu fiz certo, também posso ter punido jovens que fizeram uma burrada na vida, que simplesmente não resistiram à tentação de roubar um magrelo sardento que carrega ipods e celulares em ruas escuras após a meia noite.
Caso o erro fosse comprovado, eu seria condenado, usaria xadrez pro resto da vida, o que é bom por um lado. A minha mãe sempre me disse que sou bonito demais para ser preso. Não que eu não POSSA ser preso, mas que seria melhor se eu não fosse. É um problema ser bonitinho naquele lugar. Se bem que a situação me renderia novos posts e um livro, quem sabe. Ir na Oprah quando eu fosse mais velho e ouví-la dizer: “Good for you!” depois da reconstrução anal.
Com tanto arrependimento, levei quatro pedaços de bolo. Um para cada um dos assaltantes e outro para o tal ‘polícia’. Quis evitar levar uma rosquinha e dar margem à interpretações perigosas. Chegando lá, uma policial feminina me recebeu e passou meu bolo de chocolate pelo detector de metais, um outro, mais velho, me revistou e eu estava pronto para entrar na sala do delegado. Eu rezei para que aquela fosse a última vez que eu fosse tocado naquela noite e tem sido assim desde então.
Uma fumaça cinza pairava pelo ar da sala. Não era cigarro, era incenso. Eu podia jurar que ouvia Enya cantar ao fundo, mas era apenas a rádio sintonizada na Alpha FM. Ele tinha mãos delicadas e eu tremia. Suava. Parecia que o assaltante era eu. Ele tinha a frieza de um bom assassino saído de um filme de Tarantino e eu estava ali, pronto para dar uma de Carmen Maura em Almodóvar. Eu estava com meus tênis de fuga e poderia fácilmente passar pelas frestas de uma cela.
Mas, na verdade, o oficial queria me agradecer pela colaboração no caso. Ele disse que muita gente presta queixa apenas pelo boletim de ocorrência, mas deixa de comparecer à delegacia quando é chamado. A polícia prende de verdade alguns suspeitos e é preciso que a vítima faça o reconhecimento. Se ela não o faz, o meliante (adoro esse termo) é solto e volta para a sociedade para ouvir axé e roubar smartphones.
Para minha surpresa, os três assaltantes não estavam presos. Dois deles foram encaminhados para projetos sociais que trabalham com jovens que têm problemas com crimes e drogas e o outro virou DJ indie e toca na Augusta. Sua canção preferida é Time to Pretend, a qual ele ouviu repetidamente no meu Ipod por não saber como pular a faixa no pequeno shuffle.
Saí de lá com o espírito mais leve. Contribuí para que o sistema funcionasse um pouco melhor. Dois dos assaltantes não foram presos, mas ganharam uma chance de recuperação e o outro virou indie e é bem possível que eu esbarre nele em alguma balada em um sábado a noite.
Aliás, mentir compulsivamente já virou crime? =)


