Intimação Policial sobre Ipod Shuffle, Roubo e MGMT

16 04 2009

Poucas pessoas tem a alegria de receber uma correspondência em casa – com seu nome completo – que não seja conta a pagar ou aviso de inclusão no SPC. Para minha surpresa, recebi uma exceção a essa regra esses dias. Era um pequeno pedaço de papel, com meu nome completo escrito à mão. Seria uma carta de amor? Pensei. Provavelmente não, já que não tenho encontros românticos com alfabetizados há algum tempo.

Simplesmente não chega nada endereçado à mim no apartamento a não ser remessas internacionais de albuns indies que não vou contar quais são. Aliás, Felipe T. P. não consta nem na mensagem da secretária eletrônica, gravada por minha mãe. Além disso, já cheguei algumas vezes e não fui reconhecido por minha própria irmã, que estava ligadona em Fandangos sabor Queijo com seu filho imerso dentro do pacote.

Mas mesmo assim, abri o papel e lá estava a surpresa: era uma intimação! Eu deveria comparecer à delegacia onde fiz o reconhecimento dos ladrões que me roubaram o ipod e o smartphone, lembram? (leiam aqui, foi o melhor post ever) Aparentemente, a polícia queria novas informações sobre o caso e a minha presença era uma imposição. Tinha até hora marcada e tudo. Era um armaggedon anunciado e eu não tinha nem feito a sobrancelha.

Nessas horas, a gente entra em pânico. Comecei a me perguntar se tinha feito corretamente o reconhecimento dos meliantes. Talvez eu, tão afoito em ajudar o sistema e vingar o roubo, tenha me confundido e mandado para atrás das grades jovens inocentes que não tinham um bom alibi. Mas, se eu fiz certo, também posso ter punido jovens que fizeram uma burrada na vida, que simplesmente não resistiram à tentação de roubar um magrelo sardento que carrega ipods e celulares em ruas escuras após a meia noite.

Caso o erro fosse comprovado, eu seria condenado, usaria xadrez pro resto da vida, o que é bom por um lado. A minha mãe sempre me disse que sou bonito demais para ser preso. Não que eu não POSSA ser preso, mas que seria melhor se eu não fosse. É um problema ser bonitinho naquele lugar. Se bem que a situação me renderia novos posts e um livro, quem sabe. Ir na Oprah quando eu fosse mais velho e ouví-la dizer: “Good for you!” depois da reconstrução anal.

Com tanto arrependimento, levei quatro pedaços de bolo. Um para cada um dos assaltantes e outro para o tal ‘polícia’. Quis evitar levar uma rosquinha e dar margem à interpretações perigosas. Chegando lá, uma policial feminina me recebeu e passou meu bolo de chocolate pelo detector de metais, um outro, mais velho, me revistou e eu estava pronto para entrar na sala do delegado. Eu rezei para que aquela fosse a última vez que eu fosse tocado naquela noite e tem sido assim desde então.

Uma fumaça cinza pairava pelo ar da sala. Não era cigarro, era incenso. Eu podia jurar que ouvia Enya cantar ao fundo, mas era apenas a rádio sintonizada na Alpha FM. Ele tinha mãos delicadas e eu tremia. Suava. Parecia que o assaltante era eu. Ele tinha a frieza de um bom assassino saído de um filme de Tarantino e eu estava ali, pronto para dar uma de Carmen Maura em Almodóvar. Eu estava com meus tênis de fuga e poderia fácilmente passar pelas frestas de uma cela.

Mas, na verdade, o oficial queria me agradecer pela colaboração no caso. Ele disse que muita gente presta queixa apenas pelo boletim de ocorrência, mas deixa de comparecer à delegacia quando é chamado. A polícia prende de verdade alguns suspeitos e é preciso que a vítima faça  o reconhecimento. Se ela não o faz, o meliante (adoro esse termo) é solto e volta para a sociedade para ouvir axé e roubar smartphones.

Para minha surpresa, os três assaltantes não estavam presos. Dois deles foram encaminhados para projetos sociais que trabalham com jovens que têm problemas com crimes e drogas e o outro virou DJ indie e toca na Augusta. Sua canção preferida é Time to Pretend, a qual ele ouviu repetidamente no meu Ipod por não saber como pular a faixa no pequeno shuffle.

Saí de lá com o espírito mais leve. Contribuí para que o sistema funcionasse um pouco melhor. Dois dos assaltantes não foram presos, mas ganharam uma chance de recuperação e o outro virou indie e é bem possível que eu esbarre nele em alguma balada em um sábado a noite.

Aliás, mentir compulsivamente já virou crime? =)





O Kit-Ladrão e Como Sobreviver a Roubos e Outros Toques Não-Solicitados

2 03 2009
Xadrez tendência.

Xadrez tendência.

Com tanta gente querendo roubar bolsa, carteira e virgindade alheia, fica difícil sabe quem é ou não um bom ladrão. Tendo isso em vida, é melhor se precaver. Cuidar do que é seu envolve mais do que a higiene básica. É preciso pensar como um meliante e encontrar uma forma de enganá-lo, na maior vibe malandra classe-média indie paulistana, se é que isso é possível.

Há quem saia de casa com medo de perder tudo que tem. Tenho um amigo que anda por aí com duas cuecas, temendo encontrar quem queira roupar sua underware e ficar sem backup. Eu tento o estilo Caetano Veloso, sem echarpe e sem documentos originais, carregando apenas o necessário (deixando o cabelo em casa, por vezes, com medo que roubem pra fazer Bombril).

Pensando nessas dificuldades modernas da vida da gente, na dignidade da pessoa e na valorização do ser humanos, propomos a institucionalização do Kit-ladrão. Ao contrário do que você pensou, ele não é aquele seu amigo reluzente que carrega carteira, cartões, dinheiro e um iPod valioso.

O Kit-Ladrão é a forma de você, meu caro, pagar de barato e enganar o criminoso. Sair de casa com poucos documentos, com a xérox, de preferência, guardar o dinheiro dentro da meia, usar relógio Tonny Hilfiger e fazer cara de mau. Eu sei que você, indie como é, não sabe fazer cara feia nem tem maldade no seu coração twee, mas tente. Pense em algo como Deadfish abrindo show do Radiohead. Revoltante, não?

Se for abordado, entregue o que tem. É pouco, eu sei, mas assim você não corre riscos. Há quem tente chamar a polícia, mas no Brasil nossos fardados, preferem queimar as roscas alheias a comerem uma rosquinha e eu não sei se você está preparado para isso. Espero que não.

Provida do kit-ladrão, fantasiada de gente como a gente, uma amiga foi assaltada. Leia o relato:

- Hey, me passa seu iPod.

- Toma, mas não é um iPod, é um MP3.

- Então não quero. Me passa seu celular, garota!

- Toma!

- Não, fala sério. Esse é o celular que você usa pra entregar pra ladrão quando é assaltada. Me passa o verdadeiro.

- Mas esse É o meu celular!

- Oh, ai que dó! Quer um chiclete?

Depois dessa experiência, esta colega que não quis se identificar pode espalhar por aí que não foi assaltada graças ao Kit ladrão. Tudo bem, se você for ver bem, o criminoso acabou roubando sua dignidade e auto-estima, mas não é nada que ela não possa resolver enviando e recebendo SMS de sua terapeuta favorita.

O Kit-Ladrão proporciona uma vida mais simples e segura, como camisinha de carnaval distribuída por governo petista. Se por acaso você se sentir leve, mas carente, carregue uma carteira vazia no bolso de trás. Ela aumenta a bunda e faz companhia.

E não se esqueça: se você é da categoria Atóron Perigon, só saia correndo em assaltos se puder fazer algo meio Forrest Gump, sem olhar para trás. Agora, se você é daqueles que sentem uma dorzinha de sedentário na barriga quando dão um pique até a geladeira pra pegar um Dan Top, é melhor providenciar um Kit-Ladrão.





Ladrões, Medo e Daiane dos Santos

27 10 2008

 

Eu adoro fazer exames not. Mas como barriga doía a ponto de me atrapalhar ao dançar Joy Division e podia ser gastrite ou cirrose, resolvi marcar uma endoscopia para tirar a dúvida e um dia de folga do trabalho. Por mais invasivo que fosse, ouvi falar que a anestesia era bacana e dava um barato seguro e medicinal.

Na sala de espera, mães gordinhas, velhinhas enrugadas, um senhor que tinha cara de ser porteiro quando era vivo e eu, com meus fones brancos, ouvindo Intimacy do Bloc Party esperando que o CD se tornasse bom na 136º listening. O silêncio daquele lugar só era distraído pela voz da Sandra Annenberg e seu Jornal Hoje.

Entre jingles de Kassab e Marta na TV, o movimento do lugar foi aumentando lentamente. Como a estação Brás do Metrô, eu achei que o consultório já estava cheio até que a gente descobre que o que mais havia era lugar e muda nosso conceito sobre tempo-espaço. Pra mim, nunca me incomodou muito se o copo estivesse meio cheio ou vazio de água, mas preferia que fosse vodca.

Uma moça, provavelmente mãe de dois filhos pelo acúmulo de gordura na cintura, lia a revista Nova de 1996 do consultório. De onde eu estava sentado, via quem chegava ali pelo elevador e ela, à minha frente, tinha a visão inversa, enxergando o fundo do consultório. Nos olhávamos brevemente, trocando sorrisos curtos. Uma outra senhora sentava a seu lado, lendo um livro do Paulo Coelho, contida.

Tudo parecia bom, tudo parecia bem em um dia comum que eu chamo de quinta-feira até quando uma moça sai do elevador e simplesmente dá um grito. Eu me levanto para ver o que é, tentando enxergar o fim do corredor, pra onde a recém-chegada olhava, assustada.

Eis que a tal “mãe” me agarra, me põe entre seus peitos como Pamela Anderson fazia em tempos de SOS Malibu e me puxa pra trás de uma coluna de gesso, me escondendo. Confuso se estava sendo salvo, sequestrado ou sexualmente abusado, tento fugir, mas a mulher me segura e não me deixa ver o que estava acontecendo.

A outra senhora que lia Paulo Coelho deu um salto para trás do sofá e se escondeu. O pulo, digno de Daiane dos Santos, era causado pelo mais brasileirinho dos sentimentos: medo. O consultório inteiro se mexeu de repente, com pessoas se levantando e eu ali, sem saber o porquê.

Meu iPod Shuffle no chão, com o fio enroscado no cinto da mulher que me agarrou, tocava Franz. Eu me viro e ouço a mulher dizer: “ladrão”. Assustada, ela tremia e me segurava como se eu fosse um porto seguro. Coitada. Ao ouvir a palavra de cinco letras, tive um remember do meu último assalto e a meu killer instinct falou mais alto: me soltei, peguei um extintor de incêndio e fui ao encontro dos supostos ladrões.

A cena seguinte foi broxante. Eu entro na sala, com um extintor na mão e há um homem caído no chão. Não há sangue, mas pessoas estão em volta do rapaz, atônitas. O que aconteceu foi o seguinte: o homem, gordo e largo, sentou em uma cadeira de plástico. O assento foi cedendo, em camera lenta, cena vista pela moça que acabava de chegar pelo elevador. Ao ver o desastre iminente, ela deu um grito.

A mulher de seios fartos que lia a Nova, por um distúrbio de comunicação, ouviu a palavra “ladrão” e tentou se proteger e me proteger com meu corpinho magro e indefeso.  Sem graça, ela pediu desculpas por ter reagido daquela maneira e voltou a ler a velha revista Nova.

Minutos depois, com todo mundo mais calmo, coloquei o extintor no lugar e a velhinha sai de trás do sofá. Pergunto: “E a senhora, porque pulou toda acelerada?”

- “Ouvi a palavra BOMBA e pulei. Já pegaram o ladrão?”

Lembra daquela brincadeira infantil, telefone sem fio? Score.