*por Saulo Henrique Oliveira, vencedor da promoção do PinkEgo. (Sim, eu sei, é grande. Mas não tenha medo. Vale a pena)

Nos tempos de colégio, gostava eu de uma garota que convenhamos não era lá bem vista pelo meu grupo social. Digamos que os problemas delas variavam desde cunho psicológico até problemas básicos de higiene. Logo, passei a fazer o que qualquer macho de respeito faria numa situação dessas: na frente dos camaradas, eu metia lenha na coitada e falava mal dela até não poder mais. Apesar de secretamente sentir uma leve paixão pela moça, na frente das câmeras eu era seu inimigo número 1: inventava apelidos, fazia musiquinhas, esboçava caricaturas maldosas, jogava bolinha de papel nela entre outras atividades altamente construtivas. Ou seja, me portava como o verdadeiro cavalheiro que há dentro de todos nós!
Para entender o porte da moçoila, façamos uma breve descrição da mesma. Apresentava a rapariga altura mediana, cabelo ensebado, picanhinha na região do abdômen, pochete natural, um leve bigode e algum tipo de distúrbio glandular. Julgava eu que a moça nutria péssimos hábitos de higiene pessoal, dado que exalava um mal-cheiro característico. Provavelmente, a menina não fazia uso de utensílios de higiene básica como shampoo, gilete e desodorante. Contudo, eu sempre me enganei com a história do problema glandular e uma hipótese de ascendência espanhola para justificar os problemas com depilação enfrentados pela moça.
Convenhamos que a moça também não era lá muito legal, o que de fato não importa, porque caras como eu sempre pensam com a cabeça de baixo. Por isso, eu nunca encontrei uma explicação plausível para a atração fatal que eu sentia pela garota. Eu não conseguia achar UMA qualidade dela que me apetecesse. Isso gerou um ódio para comigo mesmo, o que provavelmente desencadeou a malediscência que eu proferi contra ela.
O contraste dentro de mim mesmo era evidente e não tardou para que o destino me desse uma bofetada. Lá estava eu em oportuno churrasco de galera, na presença de todos meus amigos, quando a menina surge das sombras, mal-vestida como de costume. Devo dizer que não me lembro de muita coisa depois do quinto copo de smirnoff. Dentre os flashs que me vem a mente, destaco uma dança sem camiseta sobre uma mesa, uma menina que empurrei de roupa na piscina e alguns segundos em que eu regurgitava no banheiro.
Chega a segunda-feira e lá está todo mundo rindo pelas minhas costas. Foi antes mesmo do almoço que as piadinhas começaram: “Aê, são jooorge, beleza?” ou “Fala aê, mata-dragão!!!”. Inclusive, passaram a me chamar de “O homem DOVE, porque o sol brilha pra todas!”. Pensei, pensei e pensei e cheguei a conclusão clara de que a única mulher feia que eu poderia ter beijado no auge da bebedeira era a dita cuja. As outras meninas do churrasco não eram feias o bastante para me render um “Homem DOVE” (me renderiam no máximo um “caridoso”).
Conversei com amigo de confiança, que na verdade se mijou de rir com a história toda, mas me confirmou a verdade inevitável. Para dar um toque mais especial, nossa querida amiga ainda estava na ilusão de que havíamos engajado em um relacionamento. Não nego que parte de mim ficou feliz com todo o ocorrido, e provavelmente foi essa a parte que a vodka trouxe à tona. Estranho o poder do álcool sobre as pessoas. Mas a vergonha que eu sentia, difamado por todos meus amigos e colegas, era demais para aguentar. Precisava dar um fim nessa história.
Decidido, resolvi procurá-la no intervalo para dar um basta! Pretendia ser cruel e impiedoso. Não iria ligar para lágrimas ou palavrões, ia terminar esse erro, botar toda a culpa na bebida e torcer para que em um ano ou dois essa confusão toda caísse no esquecimento. Conscientizei-me de que eu era uma rocha sem sentimentos, focado num só objetivo. Ao vê-la, falei que precisava falar algo importante com tom sério e chamei-a para um canto.
Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, a menina foi logo me interrompendo. E a interrupção veio com um caráter de surpresa que me derrubou. A rapariga fez uma proposta irrecusável! Os pais dela coincidentemente não estariam em casa naquela tarde fatídica e a moça disse que queria que eu fosse na casa dela aproveitar desse fato.
Poucas pessoas sabem o que é ser virgem no colégio. Ser virgem no colégio faz “O último dos Moicanos” parecer desenho de criança. Ser virgem no colégio é tipo usar roupa em praia de nudismo. A realidade é muito cruel para um virgem no colégio. AH! As piadas! A HU-MI-LHA-ÇÃO! Essas coisas marcam sua personalidade igual aqueles ferros ferventes de marcar boi. Por isso, meus olhos brilharam ao cogitar a singela hipótese de perder a virgindade. Comecei a vibrar quando a garota inferiu com todas as letras que naquela tarde faríamos sexo!
O contraste interior novamente surgiu. Pensei na vergonha que seria se todos soubessem que eu não só beijei a moça como levei ela para cama. Mas no fim, vergonha por vergonha dava quase na mesma. E claro que nessas horas a segunda cabeça SEMPRE fala mais forte. Sem hesitar, eu aceitei o convite.
Bateu o sinal indicando o término das aulas e eu estava me contendo de agitação! “Hoje é o dia em que eu vou perder a virgindade, Yéeeees” , pensava eu para mim mesmo. Encontrei com minha peguete que informou que iríamos andando até sua casa que ficava nas proximidades. Até aqui tudo indo ótimo. Perguntei se havia alguma farmácia no caminho e ela replicou com: “Relaxa bobinho, eu tenho preservativo lá em casa!”.
Quando ela falou isso, gelei até a alma. Difícil encontar moça assim, descontraída. Comecei a desconfiar que alguma coisa estranha estava acontecendo. Tomei toda a coragem do mundo e conversei sobre o assunto, confirmando com a maior certeza mais certa que tipo, definitivamente certeza faríamos sexo naquela tarde, sem sombra de dúvida. Perguntei também se a menina era virgem. Coisa de homem. Ser homem, no sexo, é quase como ser um desbravador. Ser o segundo a descobrir um continente não tem tanta graça. Eu queria mesmo era ser o Cristovão Colombo! Queria fazer a grande estréia! Para o meu conforto, ela se afirmou virgem.
Assim que entramos no quarteirão onde ela morava, a moça me solta um: “Vamos logo que eu quero que você conheça os meus pais!”. Pê-Pê-Péeeeeeerrraaaaí, PAIS? Que história é essa? Falei que ela havia me dito que eles não estariam em casa naquela tarde. Ela confirmou que isso era verdade, mas disse também que eles sempre almoçavam em casa. Nesse momento, eu senti uma vontade de sair correndo o mais rápido que eu conseguia. Tipo fugir a toda velocidade desenfreadamente para o lugar mais longe imaginável. Mas naquele ponto não tinha como voltar atrás. Meu pênis nunca entenderia a decepção. Ele não aguentaria a frustração em cima de toda a expectativa que ele havia construído. Mais uma vez, ele falou mais alto e eu acabei me sujeitando a conhecer os pais da garota.
Logo que entrei na casa dela, deparei-me com um dos ambientes mais imundos que eu já vi em toda minha vida. Era como se por décadas aquela casa nunca tivesse sentido sequer um gostinho de veja. Como se a gordura nos azulejos fosse tamanha que desse até para fazer sabonete. Pilhas de lixo jaziam espalhadas por todas as partes. Nas paredes, uma camada grossa e visível de pó. Nos móveis e estantes, pilhas de cacarecos e lixo empoeirados. Como se não bastasse, a casa emanava um odor de urina de cachorro, e alguns dejetos do animal eram visíveis ao longo do corredor.
O resto da casa seguia o mesmo padrão. Caminhamos até a cozinha, onde a garota me apresentou como o “namorado” dela para o pai. Sentei à mesa, sem saber o que pensar. Preso naquele chiqueiro, sujeito aos olhares de reprovação da mãe e de mãos dadas com uma peguete desagradável, encontrei-me imerso em um momento de silêncio que precedia a tormenta. Lembro de ter me perguntado: “Que diabos estou fazendo aqui?” e de ter dito para o meu chapa debaixo: “Tá vendo aonde você nos meteu?”. E a tormenta logo se fez presente, quando na próxima hora sofri intenso interrogatório do pai da moça.
Após um desgaste considerável mentindo sobre minhas intenções com a filha dele, justificando o meu piercing na orelha e convencendo-o de que eu não era um degenerado, o almoço terminou. Digamos que fui obrigado até a fazer uma projeção do meu futuro, ilustrando os meus planos profissionais para os próximos 10 anos. Passados alguns minutos, eles vieram se despedir e fui advertido pelo pai da menina a não tentar nada enquanto eles estivessem fora.
Ouvi o portão se fechando e o carro indo embora. O nervoso apertou, a barriga gelou e o coração bateu ainda mais forte, especialmente quando a moça me olhou fixamente. Era agora! Eu ia perder a virgindade! FINALMENTE! Ela me tomou pela mão e guiou o caminho até seu quarto. Chegando lá, empurrou uma pilha de roupas sujas de cima da cama para o chão. As roupas aterrissaram em alguns papéis amassados e sujeira de apontador. Eu até pensei ter visto um potinho vazio de iogurte, mas prefiro acreditar que era só impressão.
Eu não sei explicar porquê, mas em um momento de extrema ansiedade, eu não pensei. Corri e me joguei na cama com um salto pseudo-olímpico. Foi um momento épico. Durante o ar, ouvi um estalo forte, como se algo tivesse se rompido sobre mim. Em seguida ouvi um latido doloroso e um grito de desespero. Percebi que estava num nível bem mais baixo que a cama. Segundos depois, dei-me conta do que havia acontecido. Ao me jogar sobre a cama, o estrado cedeu, caindo no chão. Agora eu nunca vou entender POR QUE RAIOS O MALDITO CACHORRO ESTAVA EMBAIXO DA CAMA! Só sei que quando ele emergiu dos escombros, mancava bastante e gemia de dor a cada passo.
Acho que por ser uma menina tão excluída, a minha peguete acabou se transformando nessas pessoas que gosta mais do que cachorro do que de gente. Afinal, o fiel companheiro era o único ser vivo que estava sempre lá quando ela precisava. O nível dessa paixão era tamanho que ela comemorava o aniversário do cão com festinha e bolo em formato de osso. Mal posso descrever o desespero que surgiu na moça ao ver o que eu havia feito com o pobre cãozinho.
Se pararmos para pensar, eu contribui em grande parte para a exclusão social da garota, devido a imensa propaganda negativa que eu teci pelas costas dela. Logo, fui quem contribuiu para que ela comprasse o cachorro em e também para que ela o amasse doentiamente. Marx ficaria orgulhoso que seu materialismo histórico funciona até mesmo para relacionamentos pessoais. Fui eu quem criou os meios para minha própria destruição.
Segundos depois do desespero, a menina foi invadida por um ódio descomunal. Eu assisti a transformação que nela se seguiu deveras perplexo. Seu rosto ficou vermelho, suas veias saltadas, lágrimas escorriam de seus olhos e seus punhos se fecharam. Com todas as forças de seus plenos pulmões, a moça urrou: “SOME DAQUI SEU VIADO QUE EU NUNCA MAIS QUERO VER VOCÊ NA MINHA FRENTE!”.
E eu corri. Corri como diabo fugindo da cruz. Corri como queniano ganhando a são silvestre. Corri como Forrest Gump. Só fui parar quando estava na porta de casa. No dia seguinte, a garota atraiu a atenção de todas as fofoqueiras de plantão quando apareceu na aula com óculos escuro. Ela provocou ainda mais curiosidade por abaixar periodicamente a cabeça para chorar. As fofoqueiras logo quiseram saber do mais novo babado. Se apresentaram falsas como de costume, perguntando o que havia acontecido, como as boas amigas que só queriam ajudar. Enquanto minha ex-peguete contava toda a história, eu lidava com os olhares de reprovação proferido pelas abutres da fofoca enquanto “mostravam seu apoio”.
E a fofoca correu. Correu mais que diabo fugindo de forrest gump com lambreta queniana. Todo mundo, tipo TODO mundo ficou sabendo. Até o pedagogo do colégio veio falar comigo. Esse foi com certeza o momento mais vergonhoso, ridículo e FAIL da minha vida. Tenho certeza, de que até hoje meus amigos e qualquer pessoa sente vergonha alheia pela minha história. Ou vai dizer que você não está sentindo vergonha alheia também?
hahahhahaahahahahaha, cazzo, eu fiz o colégio com esse cara e NUNCA soube nem boatos dessa história. Sou mesmo um perdedor social? Certamente. ABS BG
Putz, foi a história mais engraçada que já li sobre primeira vez e vergonha alheia! Dez!
Porra, Saulo!
Porra, Saulo! (2)
NOSSA. Eu chorei de rir!!! Muito bom!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Muito, muito, mas muuuitooo bom.
Parabéns!
Que história hein! Confesso q fiquei com vergonha alheia tbm..huahau
bjo
eu não fiquei com vergonha alheia porque sofri uma história bem parecida. senti vergonha minha mesmo. :/
Hahaha, boa!
[...] nada condizente com a minha personalidade.A história é meio grande, mas você pode ler aqui. (Desculpa se não era para inventar, Felipe. Eu achei que era meio óbvio que era mentira e achei [...]
Mijante …chorei de rir sozinho…mto bom!!!…
Vergonha mesmo eu senti da minha tentativa falha de segurar o riso ao ler a história com gente demais ao redor para compreender meus ataques de histeria nervosa…
pior foi quando ele quase matou o cachorro…
o som resultante deve ter sido muito semelhante ao do bichinho mancando pela casa suja…
Meu deus!!! Eu não consigo eu ri demais dessa historia !!!!!!!
estou afzendo “minha epoca de colégio” agora, e realmente, tenho um problema 90% dos meus amigos são homens e de acordo com ele eu já faço parte “da turma” chega a sr ridiculo, pois de vez em quando falam assim: é coisa de macho, para uma garota, viram e batem na minha mão, como se eu fosse macho…
mas de todas as bizarras historia de namoradas, de tentativas frustadas, de verganha, a sua é a melhor de todas!! Eu tive um ataque de riso, eu gostei tanto que imprimi e levei para meeus amigos! q disseram q sente pena por você!
Se essa historia virasse um filme, eu iria ver XD
já q pagou o pato agora tem que traçar
eu fiz o colégio com esse cara e NUNCA soube nem boatos dessa história. Sou mesmo um perdedor social? Certamente. (2)
ABS CP
[...] do Saulo Henrique Oliveira, vencedor da último concuso do PinkEgo, com um texto fantástico sobre Como Perder a Virgindade e a Vida Social Escolar? O cara é bom e está de volta com um texto novo, sobre promiscuidade emocional. [...]
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk adorei