Eu adoro fazer exames not. Mas como barriga doía a ponto de me atrapalhar ao dançar Joy Division e podia ser gastrite ou cirrose, resolvi marcar uma endoscopia para tirar a dúvida e um dia de folga do trabalho. Por mais invasivo que fosse, ouvi falar que a anestesia era bacana e dava um barato seguro e medicinal.
Na sala de espera, mães gordinhas, velhinhas enrugadas, um senhor que tinha cara de ser porteiro quando era vivo e eu, com meus fones brancos, ouvindo Intimacy do Bloc Party esperando que o CD se tornasse bom na 136º listening. O silêncio daquele lugar só era distraído pela voz da Sandra Annenberg e seu Jornal Hoje.
Entre jingles de Kassab e Marta na TV, o movimento do lugar foi aumentando lentamente. Como a estação Brás do Metrô, eu achei que o consultório já estava cheio até que a gente descobre que o que mais havia era lugar e muda nosso conceito sobre tempo-espaço. Pra mim, nunca me incomodou muito se o copo estivesse meio cheio ou vazio de água, mas preferia que fosse vodca.
Uma moça, provavelmente mãe de dois filhos pelo acúmulo de gordura na cintura, lia a revista Nova de 1996 do consultório. De onde eu estava sentado, via quem chegava ali pelo elevador e ela, à minha frente, tinha a visão inversa, enxergando o fundo do consultório. Nos olhávamos brevemente, trocando sorrisos curtos. Uma outra senhora sentava a seu lado, lendo um livro do Paulo Coelho, contida.
Tudo parecia bom, tudo parecia bem em um dia comum que eu chamo de quinta-feira até quando uma moça sai do elevador e simplesmente dá um grito. Eu me levanto para ver o que é, tentando enxergar o fim do corredor, pra onde a recém-chegada olhava, assustada.
Eis que a tal “mãe” me agarra, me põe entre seus peitos como Pamela Anderson fazia em tempos de SOS Malibu e me puxa pra trás de uma coluna de gesso, me escondendo. Confuso se estava sendo salvo, sequestrado ou sexualmente abusado, tento fugir, mas a mulher me segura e não me deixa ver o que estava acontecendo.
A outra senhora que lia Paulo Coelho deu um salto para trás do sofá e se escondeu. O pulo, digno de Daiane dos Santos, era causado pelo mais brasileirinho dos sentimentos: medo. O consultório inteiro se mexeu de repente, com pessoas se levantando e eu ali, sem saber o porquê.
Meu iPod Shuffle no chão, com o fio enroscado no cinto da mulher que me agarrou, tocava Franz. Eu me viro e ouço a mulher dizer: “ladrão”. Assustada, ela tremia e me segurava como se eu fosse um porto seguro. Coitada. Ao ouvir a palavra de cinco letras, tive um remember do meu último assalto e a meu killer instinct falou mais alto: me soltei, peguei um extintor de incêndio e fui ao encontro dos supostos ladrões.
A cena seguinte foi broxante. Eu entro na sala, com um extintor na mão e há um homem caído no chão. Não há sangue, mas pessoas estão em volta do rapaz, atônitas. O que aconteceu foi o seguinte: o homem, gordo e largo, sentou em uma cadeira de plástico. O assento foi cedendo, em camera lenta, cena vista pela moça que acabava de chegar pelo elevador. Ao ver o desastre iminente, ela deu um grito.
A mulher de seios fartos que lia a Nova, por um distúrbio de comunicação, ouviu a palavra “ladrão” e tentou se proteger e me proteger com meu corpinho magro e indefeso. Sem graça, ela pediu desculpas por ter reagido daquela maneira e voltou a ler a velha revista Nova.
Minutos depois, com todo mundo mais calmo, coloquei o extintor no lugar e a velhinha sai de trás do sofá. Pergunto: “E a senhora, porque pulou toda acelerada?”
- “Ouvi a palavra BOMBA e pulei. Já pegaram o ladrão?”
Lembra daquela brincadeira infantil, telefone sem fio? Score.

vc é tão mau com as moças.
CLAP! CLAP! CLAP!
batendo palmas de pé!
ótima crônica!! Quando crescer quero seu igual a você!