“São coisas nossas…”

16 06 2008

“Queria que meus ritmos dominassem, que eletrizassem os músculos, que influíssem definitivamente no movimento das multidões”.

Atire a primeira pedra quem nunca sambou – ou ao menos levantou os dedinhos – ao ouvir estes versos feitos em 1929: Com que roupa eu vou?/ Pro samba que você me convidou/ Com que roupa eu vou?
Noel Rosa e Com que roupa? já estiveram em propaganda e no gogó de muita gente boa. Podemos falar de Inácio Guimarães Loyola (1931), MPB-4 (1973), Maria Creuza (1974), Zizi Possi, Gilberto Gil (1991), Ivan Lins (1997), só para citar alguns. Por isso mesmo é tão difícil falar da influência que o compositor carioca exerce em outros artistas.

Começaremos do começo. 1910 é o ano. Dois grandes compositores nascem. Um deles, logicamente, Noel Rosa, carioca de Vila Isabel. O outro, um paulista morador do bairro do Bixiga, mais conhecido por suas personagens criadas em inúmeras canções, Adoniran Barbosa. Apesar de separados por quilômetros, suas músicas se alcançaram. Adoniran, por exemplo, teve a oportunidade de ir a um programa de calouros de uma rádio três anos depois de Noel estourar com o samba citado acima, em 1933. Pois bem, o paulista nascido em Valinhos, no interior de São Paulo, estreou cantando um samba de Noel Rosa. E ficou em primeiro lugar.

Não só esta, mas muitos outros sambas de Noel impregnaram os ouvidos dos brasileiros, principalmente cariocas, nos anos 30 do século passado. O estilo do poeta da Vila, como era conhecido, retratava o social, sempre de uma maneira crítica e irônica. Noel Rosa contribuiu para que um novo tipo de samba nascesse, um samba diferente da década de 1920 que era “amaxixado”. Este novo samba vinha do povo, da junção de personagens do bairro de Estácio de Sá e dos morros cariocas. Antes disso havia muito preconceito em relação aos ritmos de origem africana, e tudo o que poderia ter influências da Europa e Estados Unidos era visto com bons olhos.

Noel Rosa não compartilhava deste pensamento, o gosto pela vida boêmia o levou para os lugares mais populares do Rio de Janeiro e o fez conhecer personagens que mais tarde se consagrariam como ícones da cultura popular brasileira, Cartola, por exemplo. Noel ficou conhecido como o principal compositor popular de seu tempo e chegou a ser chamado de filósofo do samba.

Suas composições ecoam até hoje porque ele tratava das amarguras e desventuras do povo brasileiro. Amarguras que foram sentidas novamente com mais força durante a década de 1960, quando suas canções voltaram a brilhar nas vozes de outros intérpretes. No meio tempo entre sua morte e os anos pré-ditadura, o samba em vigor era o ufanista, como podemos verificar em Aquarela do Brasil, de Ary Barroso:

Brasil, meu Brasil brasileiro,

Meu mulato inzoneiro,

Vou cantar-te nos meus versos…

Este tipo de samba ia de encontro com a política da Boa Vizinhança promovida pelos Estados Unidos, que estavam preocupados em fechar alianças com os países da América Latina, de olho nos pontos estratégicos que conseguiria obter durante a II Grande Guerra. O Brasil era exaltado lá fora e por conseqüência os brasileiros se sentiam cada vez mais orgulhosos de suas raízes. Noel morreu antes que esta nova força tomasse conta do país.


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3 respostas

16 06 2008
Mariana Araújo

noel, noel, noel…

nossa música precisa tanto de noel.

18 06 2008
Tonhão

Porra, bem legal esse blog, agência de notícias, palpiteiro por completo.
Mas, só uma leve correção: Adoniran Barbosa não é paulistano. Tá bom, vai, por excelência, devoção e acolhimento. Mas o velho mestre é de Valinhos, interior de São Paulo, perto de Campinas.
Abraços!

18 06 2008
Guilherme Salviati

Fica aqui corrigida a expressão: Adoniran Barbosa é paulista.

Valeu, Tonhão!

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