Sleep Drunk ou Vida Sexual Digital Aleatória na Madrugada

8 07 2009

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A internet realmente revolucionou o mundo. Criou amizades à distância, tornou possível ver pornografia sem que o jornaleiro soubesse algo sobre a sua sexualidade e até faz com que pessoas feias sejam famosas no meio digital.

Se, durante o dia, parece algo criado por Deus para que as pessoas sejam mais felizes e finjam trabalhar em horário comercial, à noite, a gente sabe muito bem que ela tem uma única finalidade: sexo (ou a procura do mesmo).

Eu sei que você é bem intencionado. Consigo imaginar seu quarto, a cama bagunçada, os sapatos jogados pelo chão e como você gostaria que tudo isso fosse um cenário pós-sexo. Mas não é. É apenas você, com insônia, procurando amigos para conversar.

Sei também que não é sua culpa quando você entra no UOL e ele oferece banners de sites eróticos com modelos da Playboy de 1988. Procura no Google por subitramina e ele te oferece camisinhas coloridas e os anúncios relacionados do teu Gmail trazem garotas de programa à preço de cesta básica. Soa tentador.

É quase possível sentir o cheiro do desespero. O Twitter fica mais sensual, aquelas pessoas ocupadas durante o dia se tornanm disponíveis no MSN e até mesmo os SPAMs ficam mais atraentes.

É como se, depois da meia-noite, a internet virasse um parque de diversões para insones. A gente sabe que não há nada melhor que aquele soninho pós-coito, mas se você não consegue dormir, conecte-se e adote um estranho. Tenha um papo estranho e depois diga que estava “sleep drunk”. Lembre-se: promiscuidade não existe, o que há é vida sexual aleatória.E quando é pela a internet, a chance de um carinho depois é maior. Deve rolar pelo menos um emoticon.





Cuidado! Está cada vez mais difícil morrer de morte morrida

30 06 2009

Já era de se esperar. O mundo não vai acabar em gripe suína, como não acabou em gripe aviária ou gripe espanhola. A não ser que as pessoas espirrem até seus cérebros explodirem, a humanidade não será dizimada ao som de um enorme “atchim”. Enquanto isso, procuramos novas formas de acabar com nossa raça, como nas pipocas de microondas cancerígenas.

Enquanto isso não acontece, eu te pergunto: para onde as pessoas foram? O planeta cresceu? E explico: quando eu era menor, o grande problema nas escolas era a superpopulação. Como se o mundo fosse um enorme presídio, professoras de aventais estranhos explicavam que a taxa de natalidade estava alta e que chegaria um dia em que as pessoas brigariam não por comida, mas por um espaço. O m² ficaria tão caro que casais fariam sexo apenas para economizar um lugar.

A engenharia genética ajudando casais a terem filhos em progressão geométrica, gêmeos começando a vida sexual aos 12 anos, corinthianos multiplicando-se na era Ronaldo e parece está chegando a hora do fim do oxigênio disponivel na Terra! Mas não! Ainda há espaço. Sim, eu sei que o metrô e o trêm são apertados, que há trânsito, mas não é exatamente como se alguém tivesse que te levar de cavalinho ao trabalho, né? Sempre imaginei que seria algo como aquelas pirâmides montadas por garotas de torcida americanas e que o céu seria o limite. São Paulo viraria um formigueiro e as pessoas na base seriam pisoteadas sem dó!

Aí a gente liga o jornal e entende tudo: aviões caindo diariamente, atropelamentos, assaltos, pessoas engasgando com bolachas de maizena, balas Soft perdidas no meio do estômago e concluo: Acho que nunca se morreu tanto no mundo. Ou será que a imprensa nunca falou tanto de morte como agora? A taxa de mortalidade está incrível. Viver se tornou realmente perigoso e acabou com qualquer risco de superpopulação.

O problema é que agora ficou complicado. As pessoas vivem mais. Antes se ia ao hospital para morrer. Hoje, é possível fazer um remendo e viver ate os 90 anos e a gente sabe que velhinhos acima de 70 anos são assassinos em potencial quando se trata de dirigir e, claro, se for para ele matar alguém, será você jovem, bonito e de vida sexual ativa.

Talvez seja muita neurose se preocupar com a morte, com tanta coisa acontecendo em vida, mas precisamos ficar atentos. Há uma onda estranha por aí. A morte anda matando mais do que antigamente. De forma sádica e cruel, ela prefere algo mais Jogos Mortais do que a mãe de Bambi. Cuidado, está cada vez mais difícil morrer de morte morrida.





Como NÃO Flertar em uma Balada Indie

26 06 2009

Mesmo que balada indie seja um ambiente tão sexy quanto um orquidário em Brasilia, é possível encontrar o amor em um lugar que reúne xadrez e óculos sem lentes. Apesar da semelhança com festa junina, não há fogueira e é possível se jogar sem virar Joana d’Arc. Com o olhar um pouco atento, você pode observar a paixão surgindo em alguns cantos mesmo enquanto toca Klaxons.

Mas aí aparece o herói, aquele pequeno indie obstinado, que quer encontrar sair dali com alguém. Para ele, namorado de amigo é homem e, por isso, qualquer um pode se tornar um alvo fácil. No entanto, moleza não é alternativa, logo, é preciso conquistar alguém difícil e ele resolveu chegar no cara mais misterioso da balada.

Este cara se posicionava em um canto, fumando um cigarro de marca desconhecida, talvez, feito pela natureza. Olhar para ele era sentir a serenidade de um Clint Eastwood naqueles filmes que passam durante a madrugada na TV. Dava também para imaginar as bolas de feno passando, trilha country, vento do além. Blasé era pouco.

O herói tomou coragem em forma de vodca barata, engoliu a Natasha e foi.

Erro n.01: “Oi, tudo bem? De onde você é?”. “De longe…muito longe”, foi a resposta. Nunca pergunte de onde a pessoa é a não ser que ela tenha cara de gringa. Nesse caso, faça a pergunta em inglês ou espanhol. Eu costumo emular idiomas latinos quando desconheço a nacionalidade alheia. E acredite, quando alguém coloca reticências na frase, ele não está interessado e quando alguém diz que é de longe, a não ser que diga que é de “um reino muito muito distante”, não, ele não é o seu príncipe encantado.

Erro n.02: Nosso amigo resolve dançar perto na pista e observa que o forasteiro pouco mexe as pernas. Na verdade, o misterioso apenas balança levemente o corpo como se dançasse. Talvez fosse o álcool, mas certamente não era no ritmo da música. Eis que ele diz: “Calma, vai pra lá que você está muito perto, isso me irrita”. Além dessa frase identificar que ele não está acostumado com transporte público, mostra que seu corpo não está sendo bem avaliado. Nesse caso, não adianta fazer o garoto de mastro e encarar um pole dance. Tire o time de campo, com classe.

Erro n.03: Cansado de tentar agir sozinho, o herói pede amigo da cavalaria, que geralmente é composta por amigos que já beberam demais ou estão fora do mercado. O mais desinibido ajeita a camisa, injeta um pouco de ar na calça skinny e parte em direção ao escolhido para salvar o amigo: “Ei, gato…”. É interrompido. “gato não, porque gato é animal”. Tipo, FAIL. Sim, ficou feio. Sorria e acene e fique duas rodadas sem jogar.

Erro n.04: Última chance de jogar a simpatia, você não desiste. Compra uma bebida colorida para parecer descolado e toma de canudinho. Encara aquele sorriso super simpático de promotor de boa e solta: “Oi, tudo boooooommmmm?”. “Oi por que? Eu não te conheço, conheço?”. Hora de aproveitar a deixa do DJ e trocar de área da pista.

Acredite se quiser, há quem goste de estar solteiro, curtindo sozinho ou simplesmente não está a fim de você. Mesmo sem parecer, ele pode ser uma pessoa feliz, usar as suas endorfinas sexuais para o bem e a rabugice para espantar gente inconveniente. É uma prática de auto-preservação. E lembre-se: você não tem que provar nada pra ninguém. Preserve a sua integriodade. Caso contrário, nem São Longuinho vai te ajudar a achar a tua dignidade perdida no dark room da Tunnel. Sorry.

Dicas by MUFU, que, acredite, não era o herói!





repost: Minha Visita ao Urologista e a Amputação

22 06 2009

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Quando a gente cresce, o corpo se desenvolve e passa a parecer mais com o que a gente viu nos livros de anatomia. Postura alinhada, partes salientes e pelos sem acento. Sempre vi minhas amigas visitarem o ginecologista, sem medo ou vergonha de dizerem que deixaram um estranho tocar em suas partes sem ser em uma balada. Depois de anos visitando alergistas, dermatologistas e outros enroladores, resolvi visitar o verdadeiro médico que importa: o urologista.

Para quem assustou, calma. Vai tudo bem, nada mudou de cor ou deixou de funcionar. Também não estou carente ou em busca de contato afetivo. Era apenas um check-up, pra saber se está tudo bem, se não há desarranjos. Morrendo de medo, claro, de ele dizer: |Oh, garoto! Isso não está certo! Não era pra ser assim|.

A sala de espera é constrangedora. Homens leem a última edição do jornal esportivo e eu folheio a Casa & Jardim. Sentia seus olhos de julgamento, com uma voz do meu pai, me dizendo: |Eu, aos 50 anos, pego mais garotas do que você|. Fato. Mas, mesmo assim, se Deus me deu um cromossomo Y, melhor agir como tal, mesmo que seja com moderação, certo?

O médico chama meu nome. Não queria cumprimentá-lo com a mão. Penso em quantos ele já tocou e faço uma saudação oriental, inclinando o corpo. [Posição perigosa de se praticar na frente de maníacos sexuais. Fato]. Ele me recebe bem, com um sorriso e me sinto acolhido. Como num bom date, não consigo parar de pensar em que altura da conversa ele vai me pedir para tirar as roupas.

O cara de branco pergunta se sou sexualmente ativo. Lembro de Juno. Lembro de Diablo Cody e esqueço há quanto tempo foi minha última. Reflito sobre se é possível ser sexualmente ativo, sexualmente inativo ou sexualmente passivo. E sexualmente ausente? Enquanto penso, ele pula para as próximas questões, tipo: |Por que você me procurou?|. Responder que estava entediado seria perigoso.

Não demora muito e deito na maca. Para minha surpresa, não é preciso tirar as roupas, mas apenas abaixar a calça. Sempre imaginei uma cortininha, onde o paciente entrasse, se despisse e um médico de mãos frias e geladas analisava clinicamente o órgão sexual da visita. Esse me surpreendeu. Tinha mãos mornas.

Examinando, fez uma cara feia. Ai Doutor, o que se passa? Seria caso para amputação? Não podemos fazer um transplante? Não vai crescer outro no lugar? Ele coloca os óculos e parece satisfeito. Pediu para que me vestisse e falou que estava tudo bem, tudo no lugar e de acordo com as normas da ABNT. Mas, por via das dúvidas, falou que eu deveria voltar lá daqui a 30 dias. Seria ISSO um date?





Magralinda x Gordanot(?)

19 06 2009

Texto por Camila Carneiro

Quando eu nasci, era um bebê realmente fofo, com cara de joelho e peso de um corpo inteiro. Em apenas 3 meses, eu já pesava 9kg enquanto minha mãe tomava anabolizantes para me carregar. Na verdade, lembro até hoje de ver visitas me segurando, suando e fingindo conforto.

O tempo passou e não mudou muita coisa. Eu era a criança gorda, redondinha, daquelas que são ótimas para rimas de amigos malvados que acabam se tornando marginais na adolescência. “Gorda/Baleia/Saco de areia/Comeu banana podre e morreu de caganeira”, cantava Wilson, que hoje deve ser porteiro de puteiro.

E, na verdade, eu estava cagando montes para as pessoas da minha infância. Eu era auto-suficiente, me entretinha com meus próprios pensamentos aos 6 anos e ignorava o papo furado que vinha de fora. Meu mundo era eu e se encerrava em mim, mesmo enquanto eu me sufocava com minhas bochechas a cada sorriso.

Sim, Educação Física não era para mim. Era a última a ser chamada, logo depois da outra Camila, que mancava e não falava português. Não era incomum eu aparecer com faixas e dizer que havia quebrado o braço, dores-de-barriga inventadas e visitas constantes de alienígenas que teimavam em esquecer uma sonda anal. Esta última, apesar de parcialmente divertida, nunca convenceu professores.

Aí que chega a adolescência e pouco importa o que a gente pensa, você só quer saber dos outros, da opinião alheia. Dei adeus à minha auto-suficiência e escondia meu corpinho com casacos e mais casacos, Alaska-style. Tenho trauma até hoje de lã e ganhei o prêmio de auto-iglu móvel na feira de ciência das escolas.

Mudei de escola e conheci o capeta em forma de números de matrícula. A turma era do mal, envolvida em uma fumaça preta à base de Marlboro e câncer no pulmão. Com tanto alucinógeno, tanto faz se eu era gorda, azul ou usava pochete. “Sou gordo e quem liga? Pego o cara gato do colégio!”. Pena que durou apenas o primeiro ano.

No segundo colegial, me tornei compradora compulsiva de sapatos. Eu gosto de sapatos. Eles não discriminam as pessoas. Se você calça 34, tanto faz se é gorda ou magra, teus dedinhos caberão lá da mesma forma.

E, pra vestir o clichê de vez, me tornei engraçada. Toda gorda é engraçada, amiga e ótima companhia. Dos 15 aos 23 anos, isso não mudou muito. Mantive meu tamanho, o humor e a vontade em me tornar uma centopéia. Eu já me conhecia. Já sabia como meu corpo funcionava e minha cabeça já tinha se conformado com isso. Era questão de deixar o tempo passar e torcer para o Google inventar uma pílula de emagrecimento online.

Ai chegou a crise dos 25 anos. Já ouviu falar dela? Se não, é por que você é novo e eu te odeio, mas é o equivalente à crise dos 24 anos para os membros do GLBT e restante do alfabeto. Tudo muda. É uma puberdade nova, sem as espinhas, descoberta sexual e exemplares da Capricho.

Eu pesava respeitáveis 85 quilos, distribuídos em 1,53m. Resolvi mudar de vida. Fechei a boca. Parei de comer mesmo. Entrei na academia, fiz a matrícula e, pasmem, comecei a freqüentar. Entre exercícios, abdominais e pororocas de suor limpo, eu mudei!. Perdi 25kg em 8 meses, o que seria, na verdade, o peso de uma criança saudável africana. E agora eu tornava uma pessoa normal. Até a próxima crise, pelo menos. Aí o que eu perco? Os cabelos? A libido? A vergonha na cara? Mal posso esperar.





Seja um Jornalista e ganhe um Diploma para usar como Mouse Pad

18 06 2009

Se os jornalistas entraram em greve, ninguém nunca soube por que não foi publicado. Foi um ‘caos’ silencioso. Aliás, se Jesus voltasse, naquele dia, só saberia quem tinha twitter e passaporte para o Céu comprado na Renascer. E, na verdade, com o fim da obrigatoriedade do diploma, todos os formados em jornalismo ganharam a opção de usar o papel marcante do fim da graduação como mouse pad.

Na verdade, há um certo tempo que a gente fala na crise do jornalismo. Nenhuma profissão faz tanta auto-crítica quanto a nossa. É a internet que matou o impresso, é a TV que matou o rádio, é a jornalista que matou a gramática em rede nacional, é o estágio que paga mal e exige curso de preparação de café. É o fim. É o fim? Que nada, enquanto houver poodles de apartamento e passarinhos em gaiola, te garanto: o jornal impresso não acaba, mas mídias se somam e há espaço para quem não é funcionário-fantasma. Jornais e jornalistas morrem enquanto o jornalismo sobrevive, ás custas de experiências fracassadas e profissionais mal-sucedidos.

O que vale agora é que pouco mudou. Quem não é bom, como em qualquer profissão, não pode usar a graduação como muleta. Se funcionasse, talvez,  como reserva de mercado, o jornalista sairia por aí, exibindo o diploma como distintivo de xerife. Mas não é.  Agora, se a briga era por reconhecimento de mérito, de conhecimento de causa, e se é assim, use teu currículo, tua formação acadêmica, teus textos publicados, sua pesquisa, suas viagens, sua especialização. Já que ninguém inclui teste do sofá em CV, melhor manter isso na gaveta, por enquanto, até que desempenho sexual vire diferencial de mercado.

Jornalismo, como curso, é essencialmente técnico. A atuação, não. Na faculdade, aprende-se a pensar como jornalista, a escrever como jornalista e se posicionar como jornalista, com direito a peito inflado e tudo. No trabalho, é preciso ser sagaz, ter bagagem, ser ético, ter humildade de mudar de opinião em busca da verdade. E se a teoria e a prática se complementam, se o estudo e a atuação profissional caminham juntas, seria óbvio dizer que não é necessariamente  preciso fazer uma faculdade para ter acesso à isso?

E se agora, a exigência que nunca existiu se acabou, que seja o fim dos jornalistas heróis. O fim da síndrome do Clark Kent,que constrói a notícia, que domina a opinião alheia e sabe os manejos do interesse público e interesse do público. E que a ele cabe o recurso de se passar por outra pessoa, de omitir informações, de blefar, chantagear, negar. O conhecimento é aberto, a atividade intelectual é democrática e a técnica pode ser aprendida até fora de 4 paredes. E quanto a  boa e velha função social, a serviço do país…bom, se não é preciso mais ter diploma para ser jornalista, então temos mais de 180 milhões de jornalistas, não? Aja como um, seja curioso e saiba escolher os bons profissionais, com ou sem aquele pedaço de papel. O compromisso com a verdade é, e sempre foi, de todos.





Street Fighter: O Duelo Nerd ou Sonic vs. Mario: School Edition

17 06 2009

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Brigas de garotos de escolas particulares costumam ser monótonas, com pré-adolescentes envolvidos em desafios de quem rasga mais dinheiro, quem tem mais contatos no smartphone e quantas ex-mulheres o pai tem. Em todo caso, brigas de garotos nerds de escolas particulares costumam atrair atenção pelo grau de bizarrice.

No meu caso, era um conflito premeditado. Eu era Nintendo. Ele era Sony. Eu era Matemática. Ele era Física. O número dele antes vinha antes do meu na chamada mas eu me posicionava na frente dele na fila, por ser mais baixinho. Não era comum encontrar os dois duelando em problemas de matemática ou em quizzes baseados na tabela periódica. Alguns diziam que era amor. Pra mim, era apenas falta de sexo e excesso de neurônios desocupados.

O conflito foi ficando sério. Mandei uma reclamação pra mãe dele em seu caderno e, em troca, recebi uma ameaça via SMS. Os demais garotos de escola particular, entediados com a falta de emoção de um colégio que usa uniforme marrom, resolveram incentivar. Os mais velhos ficaram ao meu lado. Os mais novos, ao lado dele. Chamavam de Street Fighter: Sonic Vs. Mario – Nerd Edition.

Pois bem, a briga foi marcada. Seria no laboratório de química, no subsolo, após a aula de educação física, no período da tarde. As instruções foram bem confusas para que ninguém se lembrasse muito bem do cenário da luta, já que garotos de escolas particulares costumavam ter memória curta para lugares e fatos.

Chegou o dia e eu resolvi me arrumar bem. Queria derrotar meu oponente não apenas atirando colas Pritt, mas também pela elegância. E, enquanto eu passava gel no cabelo, começou a me bater um medo. Lembrei daqueles vídeos que passavam no Cidade Alerta com brigas de garotos de escolas públicas que se cortavam com estilete. Meu nerd rival poderia me atacar com um compasso! Como uma escola podia permitir a entrada de algo tão perigoso? Era absurdo! Eu não podia correr esse risco. Amarelei. Não fui. Faltei!

Agora eu sabia que no dia seguinte eu seria humilhado publicamente. Eu tinha certeza que todos me olhariam com desprezo e que o outro, o Mario, seria eleito o novo nerd master e que agora eu teria que andar pela escola com o grupo dos reprovados em Educação Artística. Já planejei a transferência de escola, a crise de sindrome do pânico que seria usada para mobilizar meus pais e redigi uma breve carta de despedida aos meus colegas de escola. Mas, por um golde do destino, isso não foi preciso!

O outro nerd também faltou! Ficou com medo de mim, olha essa! Por sorte, nos encontramos em frente ao colégio para comer a nossa coxinha desidratada matinal e combinamos uma saída fenomenal. Era simples: ele levaria um soco meu e eu levaria um soco dele. Nada sério, só o suficiente para causar um bom olho roxo e dizer que ouve uma briga propriamente dita e sairíamos como Ken e Ryu, que lutavam todos os dias, mas que mantinham uma amizade apesar disso.

Até hoje eu me lembro de seus olhos fechados, sua cara de medo, enquanto eu preparava o meu soco certeiro em seu olho direito. Fui tomado por uma dose de adrenalina incrível. Eu estava realmente curtindo isso. Eu tinha motivos para bater nele e, como ele estava permitindo isso, minha consciência ficava mais leve. Era perfeito. Dei o soco. O nerd deu dois pulos para trás e caiu no chão. Eu olhei, ri e estendi os braços para o alto, como Rocky após uma vitória. Entrei pela escola gritando que avia derrotado meu oponente e fui aclamado! E foi assim que eu fui filho-da-puta pela primeira vez na vida.





Sincericídio – Como Matar Amigos e Desconhecidos com a ‘Verdade’

15 06 2009

“Nossa, essa foto é de quando? Três anos atrás? Ah, só dois meses?! Nossa, você tá bem melhor na fotografia, não? Uau, mas bem melhor na fotografia. E olha que era foto de máquina antiga, então nem rolou Photoshop. Essa vida corrida de hoje em dia acaba com a gente, não?”. E foi assim que minha mãe matou uma visita.

Toda mundo é um assassino em potencial e, para isto acontecer, basta abrir a boca. Não estou falando em crimes cometidos em atos orais mal-sucedidos ou mordidas de vampiro em pescoço, mas na forma mais antiga de se matar alguém: o sincericídio. Uma dose certa de verdade é capaz de acabar com a vida de uma pessoa.

Digo que minha mãe matou uma visita porque a senhora, retratada na foto, ficou realmente mal. Foi como se aquela sequência de frases desastradas tivesse feito com que ela percebesse o quanto envelheceu em pouco tempo. A tal fulana morreu em menos de dois meses. Há quem diga que foi em um acidente de carro, eu ainda acho que foi minha mãe.

Todo mundo gosta de “gente que fala o que pensa”. O problema é que gente pensa muita merda. Somos humanos, cometemos erros de julgamento. Muitas vezes, a sinceridade é usada pra disfarçar a grosseria. A pessoas diz, com aquele alívio incomum do “pronto, falei”, e quem ouve ainda deve agradecê-la por ter falado a verdade. Que nada. Muitas coisas não passam de ponto de vista e se o que você pensa não vai trazer um bem comum entre você e a vítima, não diga. Se falar algo vai apenas fazer com que o outro se sinta mal em troca do teu alívio, fique quieto, compre um sorvete e seja feliz.

Há dois tipos de sinceridade:

Sinceridade boa: quando um amigo te previne de sair de casa com um cachecol no verão porque está ‘friozinho’, quando tua mãe te avisa que você é feio demais pra aparecer na tv e que por isso deve fazer faculdade, quando o Windows pergunta “tem certeza que deseja desligar o computador” e você sabe que quer ficar mais um pouco ou quando a bula do remédio que você usa te avisa antes que os efeitos colaterais podem causar perda da libido.

Sinceridade ruim: quando o garçon pergunta se eu quero MAIS uma vodka! Mais uma? Quem é ele pra julgar o quanto eu bebo? E a moça do supermercado, que pergunta: “É só isso, senhor?”. Meu orçamento é curto, mas ela não precisa me lembrar disso. A sinceridade bancária também é ruim, porque ela não te trata com carinho. Em vez de dizer que você está devendo, ela fala, com todas as letras e numeros, o tamanho da sua dívida.

Eu, por exemplo, estou a beira de um sincerício sempre que o Gmail diz: “Você não tem mensagens novas”. Sou salvo da morte sempre que chega um SPAM pra me lembrar que eu existo digitalmente.





Pessoas que você não deve adicionar no Orkut e Como Odiar Amigos Sem Culpa

10 06 2009

Eu sonho com um dia em que surgirá uma comunidade ou blog que sirva para que você possa dizer o quanto odeia seus amigos e conhecidos. Funcionando como uma espécie de Burn Book, do filme Garotas Malvadas (Mean Girls), você pode despejar ali o quanto sente repulsa por uma pessoa e ver a sua raiva compartilhada por outras pessoas. Assim, sem bullying, sem flame wars, apenas o ódio mais puro em sua essência católica reprimida. Teu terapeuta agradece e poderá cancelar a consulta que agendou com o psiquiatra.

Se o Twitter talvez servisse para isso, acabou virando um agregador de mimimi, com pessoas reclamando ou dizendo coisas que estão fazendo, enquanto deveriam estar trabalhando ou pagando impostos. Pra ser sincero, se o Orkut é vitrine e a minha rede social dos sonhos é para o ódio, o Twitter permite que as pessoas digam o quanto elas pensam em sexo durante o dia, em 140 caracteres. E, muitas vezes, com seus amigos. Isso sim é interação social. Habeas corpus, meu filho. Saia da prisão da internet e arranje um motel!

As redes sociais proporcionam situações bizarras que fariam Stalin se sentir desconfortável. Filtrando tanto assim, sobra poucas pessoas e, provavelmente, elas também não encontrem motivos para me adicionar. Eu não as culpo. Não tenho fotos sem camisa, mas já coloquei um raio-x do meu pulmão digitalizado, que é quase a mesma coisa. Mesmo assim, ainda acho que o Orkut cumpre sua função, que é a de fazer você conhecer muita gente estranha na internet para acabar valorizando os amigos que você já tinha antes disso. Para todos os efeitos, vamos à breve lista:

Foto de bebê no perfil: Tipo, sério? Foto de bebê? É você, é seu filho, é alguma criança que você roubou da creche Tia Vilma? Está querendo provar para as garotas que é bom com bebês e que pensa em ter filhos? Olha, pra mim, soa algo meio Michael Jackson. E, na boa, algo de bem ruim deve ter acontecido durante a sua vida para que a melhor foto que você tenha seja de 20 anos atrás. Tudo bem, não julgamos as pessoas por cortes de cabelo ruins ou escolhas infelizes de maquiagem, mas foto de fralda, não. Não é bonitinho.

Orkut de perfil duplo: Tudo bem, você está namorando e quer dizer ao mundo todo isso com a delicadeza da letra de um funk em braile, mas não é por isso que você e sua namorada precisam usar um perfil único no Orkut. E se eu não gostar dela, preciso me referir aos dois quando eu for deixar scrap? Tenho que perguntar “Tudo bom com vocês?”, porque olha, no Brasil, usar plural é mais caro. Guarde suas fotos compartilhadas para o seu album. Seus amigos são seus amigos e os dela, dela. E quando terminar, como faz? Os dois fazem novos perfis e me adicionam de novo? Acho que não. Se há mais de uma pessoa na foto do perfil, já presumo que a pessoa tem amigos suficientes e não precisa de mim.

Pessoas sem camisa: A não ser que você tenha um terceiro mamilo ou não tenha umbigo, desculpa, amigo, mas não há nada de interessante no seu peito nu ou barriga de fora. E um aviso: quando seu peito pode ser usado como apoiador de copos, este é o ponto em que você para de usar anabolizantes, ok? Aliás, aquele remedinho azul que você está procurando chama Viagra. Tome 2 ao dia pra se fortalecer para o final de semana.

Família: Acredite, não é legal receber um recado: “e aí primo, vai na festinha da tia joana no sábado?”. Tudo bem, você vai na festa, mas seus amigos não precisam ficar sabendo, né. Isso acaba com qualquer desculpa de bolso vazio, febre alta ou que esqueceu o celular dentro da bolsa. Família e orkut não combinam. Já vi parentes se pegarem, no mal sentido, porque não se atribuiram estrelinhas de confiável.

Gente muito sorridente: Ora, ninguém realmente inteligente pode ser muito feliz em um mundo com crise econômica, aquecimento global e redes sociais que não exigem teste de alfabetização. Não é que eu odeie pessoas. Eu até gosto delas. Prefiro as vivas do que as mortas. Elas riem mais. Se bem que tem muita gente viva que não ri. Eu gosto mais dessas. Valorize seu sorriso. Use com moderação.

Eu: Felipe Luno não gosta de pessoas. Elas ocupam espaço na balada, estão antes de mim na fila do banco e, quando muito velhas, cheiram a naftalina, quando muito novas, a leite azedo. O mundo seria um lugar melhor sem as pessoas. Eu poderia remover os avisos de “não pise” na grama e ir sentado no transporte público, sem trânsito. Se bem que o ônibus não ia andar por falta de motorista, mas aí é outro problema…





Quero Ser Taiwan: Como Eu me Tornei Mão-De-Obra Qualificada

8 06 2009

Eu fui criado para o trabalho. Desde pequeno, papai me ensinou a ser um bom proletário. Aos dois meses de vida, recebi a tarefa de construir meu próprio berço com peças de lego. O projeto ficou pronto quando eu já tinha 2 anos e adaptado a pequena cama a ter um teto removível e abrigo nuclear.

Meus primeiros brinquedos eram guardados numa caixa de ferramentas. Minha habilidade em manusear o martelo era bem aproveitada no primário, quando professoras cheirando a leite materno azedo me erguiam em seus ombros para pregar algum colega mal-comportado no teto da sala.

Ainda assim, fui uma criança feliz. Enquanto outros jogavam bola, eu jogava peteca com minha prima albina calculando o ângulo da queda do pequeno artefato e anotava em um caderno. Demos nosso primeiro beijo enquanto compartilhavamos nosso amor por Báscara e sonhávamos com um filho chamado Delta e o casal Cateto e Hipotenusa.

Meu pai envelhecia orgulhoso enquanto eu chegava em casa com medalhas, troféus e uma coleção de olhos roxos por ter apanhado do movimento anti-CDF da escola pública do bairro. Cada agressão era fotografada e exibida com orgulho em reuniões familiares: “Tá vendo esse? Foi quando ele foi o primeiro a lembrar a professora que ela deveria passar lição de casa para o feriado prolongado. E tem esse também, quando ele sugeriu a abolição do intervalo para um novo seminário de matemática”.

Chegada a hora de escolher uma profissão, era óbvio. Eu seria engenheiro. Entrei na faculdade e ali era meu lugar. Um ambiente pintado com verde-hospitalar, uma sala cheia de lápis bem apontados e jovens prontos a aprender. O lugar, predominantemente masculino, evitava qualquer distração, apesar de que a canela peluda da Profa. Maria foi o mais perto que cheguei de algo feminino durante os meus 5 anos de estudo.

Mas não bastava ser bom, ser eficiente ou ter meias limpas. Era preciso ter algo mais. O mercado é exigente e meu pai também. Terminada a graduação, ele me colocou para fora de casa e disse que o mundo me criaria a partir de agora. tentei ganhar algum dinheiro equilibrando compassos e esquadros no farol, furei minha mão e ganhei poucos trocados. Ninguém queria saber de fórmulas matemáticas. Ninguém dava bola para o número do PI, que não varia com a inflação, dólar e gordura saturada!

Foi aí que eu cansei. Cansei de tentar ser mão-de-obra qualificada. Cansei dessa vida de ser um projeto proletário que constrói a felicidade alheia. Não queria mais ser Taiwan, que estampa objetos de tecnologia complexa utilizados por simplórios que assistem a TV comendo Fandangos.

Entrei num salão de cabeleireiros e coloquei a tabela períodica inteira em meus fios de cabelo. Fiz peeling, spinning e comprei um Crocs. Acessei a internet e fiz um twitter.Resolvi desenvolver a minha genialidade em 140 caracteres e te garanto que tem sido mais atraente do que expressar meu vazio sem limites tentando ser Taiwan.





Supermercado, loucos e patinadores: a profissão do futuro

2 06 2009

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Você é o que você come e nenhum lugar no mundo é melhor para descobrir sobre a validade desta afirmação do que um Supermercado. De carrinho, cestinha ou levando na mão, todo mundo leva o que gosta de comer, o que precisa comer e o que gostaria de comer, mas que não come porque McDonalds é mais gostoso.

Esse lugar, calmo e pacífico, dedicado ao comércio de mantimentos e suprimentos, na verdade é um pararaio de doido. Isto é, em um bom supermercado, você pode encontrar todo o tipo de maluco, desde o que confere item a item da nota fiscal até o que fica apertando papel higiênico para levar o mais macio.

Em um dia de fúria capitalista, uma tarde bizarra, vi uma mãe colocar o filho chorão dentro de um carrinho e empurrá-lo até que o mesmo derrubasse uma pilha de ervilhas enlatadas. Enquanto a maioria dos consumidores não sabia se denunciava a mãe ou ria, nossas ações foram antecipadas por uma voz do além, que disse: “Colaboradora Nádia, favô recolher as lata caída do corredor 8″.

Quando somos crianças, é fácil se distrair na seção de doces e bolachas. Pegar os pacotes e tentar colocar no bolso ou esconder dentro do carrinho, sema mãe ver. “Leva esse, mãe” era uma frase que precedia a morte na época da havaiana de pau. Esses dias, uma amiga ameaçou bater no filho que não parava de abrir garrafas de refrigerante. A resposta do pequeno: “Bate que eu te denuncio por maus tratos e você vai parar com a mãe da Isabella”. Ponto para o garoto.

Mas mesmo assim, já vi adolescentes brincando de pega-pega perto dos congelados. Arremessavam refeições prontas Sadia uns para os outros e só foram interrompidos por uma moça, aparentemente esquizofrênica ou simplesmente mãe solteira de 5 filhos, que insistia e brincar de médico com um deles.

Há uns 10 anos, a profissão do futuro para mim era a daqueles rapazes que desfilavam pela loja de patins de 4 rodas. Era incrível a agilidade demonstrada por esses profissionais. Eu queria ser isso quando eu crescesse. Muitos deles ainda pensam assim, já que hoje, vejo homens de 40 anos de idade correndo atrás de um detergente com a elegância de um filme da Angélica.

Mas ver tanta gente doida pode ser facilmente esquecido pela graça de ceder um lugar a um velhinho na fila e descobrir que ele levou a família inteira para fazer compras. Ele dará um leve tapinha nas suas costas, daqueles de fazer cócegas no pulmão, e você volta a simpatizar com supermercados e seus habitantes.

Aliás, o que aconteceu com as sacolas plásticas dos mercados? As garrafas de 2 litros da Coca-Cola estão mais pesadas ou elas simplesmente estouram mais do que antigamente?





Tarefas Domésticas e Fiascos Alimentares

28 05 2009
Bad son! No soup for you!

Bad son! No soup for you!

Nem todo mundo tem talento para as tarefas domésticas. Há quem não domine um aspirador, queime pipoca de microondas e use o forno do fogão como armário para bolachas e alimentos semi-prontos. Não podemos julgar essas pessoas. Elas estão preparadas para um futuro cruel, no qual o alimento será raro e vendido em pílulas na farmácia.

Se você acredita nesses seres superiores, minha mãe é um deles. Nunca levou sorte na cozinha. Foi somente fora de casa que aprendi que arroz não se corta com garfo e faca e que carne, na verdade, não é para ser servida em forma de carvão.  Ela carrega em sua bolsa tudo o que precisa para se alimentar durante o dia e sugere que façamos o mesmo: dois pacotinhos de Club Social e dois potinhos de Activia.

Muitas vezes, cansada de inalar fumaça frente ao fogão, ela dava uma grana e minha irmã e eu íamos até o restaurante Meio Quilo, perto de casa. De fato, esse não era o nome do lugar, mas o dinheiro cedido só dava para 500g de comida, sem refrigerante.

Se os salgados ficavam secos, lembro que todo bolo virava pudim, gelatina era líquida e torta parecia um pavê com sal. Depois que lançaram a linha de congelados, minha mãe sentiu como se tivesse encontrado Jesus. Fez um contrato vitalício com a Sadia e não conheço refeição que não esteja pronta em até 10 minutos. Vez em quando, para variar, ela chega com latas de comida pronta, que vão de talharim a yakisoba, preparados por militares na década de 60.

Mesmo tendo intolerância a vegetais e verduras por culpa dela, eu a entendo. Ela e meu pai namoraram por apenas 6 meses antes de se casar e ele, nesse tempo, não percebeu que a futura mãe de seus filhos provavelmente não saberia o que fazer após parar de amamentar. E nem todo mundo é obrigado a gostar de cozinha.

Posso dizer que, hoje, a cozinha virou um frigorífico de congelados e semi-congelados e o microondas foi transferido para a sala. Somos umas das poucas famílias que tem o prazer de assistir TV a Cabo enquanto preparam uma deliciosa receita caseira de lasanha Sadia.